Janeiro fechou com um desenho raro e revelador. No Brasil, o Banco Central decidiu manter a Selic em 15%. Nos Estados Unidos, o Federal Reserve manteve os juros, mas sem unanimidade. A bolsa brasileira bateu recorde histórico, o dólar caiu com força frente ao real e, ao mesmo tempo, o ouro encerrou o pregão em 5.400, o maior valor da história.
Esses movimentos não se contradizem. Eles se explicam mutuamente. A decisão do Banco Central brasileiro foi menos uma escolha e mais uma imposição do sistema. Manter a Selic em 15% não é sinal de convicção ideológica, nem de coragem excessiva. É o preço que economias emergentes pagam para continuar relevantes em um mundo ainda comandado pelos juros americanos. O Brasil preservou o diferencial de taxas porque sabe que, sem ele, o câmbio perde âncora e a confiança evapora rápido.
Nos Estados Unidos, o sinal foi mais sutil e mais importante. O Fed manteve os juros, mas a decisão não foi unânime. Christopher Waller e Michelle Bowman votaram contra. Esse dado não é detalhe técnico. Waller é visto como possível sucessor de Jerome Powell, e quando um nome com esse peso rompe o consenso, o mercado entende que o debate interno mudou de fase. Não há corte ainda, mas há dúvida. A dúvida é combustível para movimento.
Foi exatamente essa dúvida que abriu espaço para o Brasil em janeiro. Com a percepção de que o ciclo de aperto monetário americano se aproxima do limite, parte do capital global voltou a procurar retorno fora dos Estados Unidos. E o Brasil apareceu como candidato óbvio: juros muito altos, bolsa ainda defensável em valuation e um câmbio que amplifica o ganho.
O efeito foi direto. O Ibovespa renovou máximas históricas, sustentado por fluxo estrangeiro consistente. E o dólar caiu, porque investir aqui exige vender dólar e comprar real. Não houve milagre econômico. Houve fluxo. E fluxo não é fidelidade, mas sim oportunidade.
É justamente por isso que o dado mais importante do mês não foi a bolsa nem o câmbio. Foi o ouro a US$ 5.400. Não bate recorde em ambiente de confiança plena. Ele sobe quando o investidor aceita risco, mas não confia no sistema. O que o mercado fez em janeiro foi claro: entrou em bolsa, aproveitou o juro alto brasileiro e montou proteção. Ganhou dinheiro, mas não tirou o capacete.
Meu ponto de vista é direto: quando bolsa sobe com ouro em recorde, não é euforia, é cautela organizada. É o retrato de um mercado que opera uma transição, não um novo ciclo estável.
O cenário mais provável: dólar mais baixo, mas sob vigilância permanente
O cenário-base para o primeiro semestre não é de festa nem de colapso. É de continuidade tensa. O Federal Reserve segue dividido, mas sem dar o passo decisivo. A maioria do comitê prefere esperar mais dados antes de iniciar cortes relevantes. A divergência interna existe, pressiona o discurso, mas ainda não vira ação.
No Brasil, a Selic permanece alta exatamente para sustentar esse equilíbrio frágil. O Banco Central sabe que qualquer movimento apressado pode desmontar, em semanas, o que levou meses para ser reconstruído. O juro alto segue sendo âncora.
Com isso, o fluxo estrangeiro tende a continuar, ainda que menos intenso do que em janeiro. A bolsa pode se manter em patamar elevado, com ganhos mais seletivos e maior volatilidade. O dólar permanece mais contido, sem força para retomar rapidamente os picos recentes, enquanto o diferencial de juros seguir favorável e o Brasil não produzir seus próprios choques.
O ouro segue alto, não como sinal de pânico, mas como lembrete. Ele indica que o mercado não acredita em estabilidade prolongada. Acredita, no máximo, em janelas. Aqui está o ponto que costuma ser ignorado: o real forte não é uma conquista estrutural, é um intervalo. Ele existe enquanto o fluxo entra. E fluxo entra enquanto o risco é bem pago. Quando deixa de ser, não há aviso prévio. O mercado não toca sino.
O Brasil, neste momento, está jogando bem dentro das regras do sistema financeiro global. A Selic em 15% ajuda. O Fed dividido abriu espaço. O fluxo respondeu. A bolsa comemorou. Mas o ouro em US$ 5.400 lembra que ninguém está apostando tudo nesse roteiro. Quando o mercado sobe protegido, é porque sabe que o chão pode mudar rápido.
*Coluna escrita por Fabio Ongaro, economista e empresário no Brasil, CEO da Energy Group e vice-presidente de finanças da Camara Italiana do Comércio de São Paulo – Italcam
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