Mesmo antes de entrar em vigor, o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, vinhos brasileiros já começam a ganhar espaço no mercado europeu. O movimento, ainda incipiente em volume, é simbólico e revela uma transformação no setor vitivinícola nacional, que passa a operar com visão internacional, foco em qualidade e estratégia de posicionamento.
Segundo Guilherme França, sócio da Intrust Associates e responsável pelo projeto Vin du Brésil, a antecipação das exportações mostra que parte dos produtores brasileiros já consegue competir mesmo antes da vigência do acordo.
“Exportar antes do acordo significa que alguns produtores já atingiram um novo estágio de maturidade. Não é só sobre qualidade do vinho, mas sobre gestão, conformidade regulatória e visão internacional. O acordo pode acelerar o processo, mas a base já está construída”, afirma.
Preços dos vinhos no Brasil: queda não é imediata
No debate público, o vinho costuma aparecer como um dos produtos mais citados quando se fala em possível redução de preços com o avanço do acordo Mercosul–UE. No entanto, França pondera que o impacto econômico tende a ser gradual e desigual, sem efeitos automáticos para o consumidor.
“Pode baratear, sim, mas é importante alinhar expectativas. A redução de tarifas sobre vinhos europeus tende a aumentar a concorrência no mercado brasileiro, o que pode gerar ajustes de preços ao longo do tempo. Por outro lado, isso também pressiona o produtor nacional a ganhar eficiência e posicionamento“, avalia..
Segundo o especialista, o principal ganho do acordo não está na queda pontual de preços, mas na transformação estrutural do mercado, com mais concorrência, eficiência e sofisticação.
Onde está o custo do vinho?
Ao contrário da percepção comum, as tarifas não são o único e nem o principal fator que pesa no preço final do vinho no Brasil. De acordo com França, os custos estão distribuídos ao longo de toda a cadeia.
“As tarifas têm peso, mas logística, carga tributária interna, câmbio e margens da cadeia também impactam bastante. Mesmo com o acordo, o efeito tende a ser diluído no tempo”, diz.
Além disso, a redução tarifária prevista em acordos comerciais costuma ser gradual, o que reduz a chance de repasses imediatos ao consumidor final.
Exportar é mais do que pagar menos imposto
Quando se trata de exportar vinho brasileiro para a Europa, a tarifa aparece longe do topo da lista de desafios. O principal obstáculo, segundo França, está na combinação entre burocracia, certificações e percepção de mercado.
“A Europa é extremamente exigente do ponto de vista regulatório. Isso exige preparo técnico e administrativo. Além disso, o vinho brasileiro ainda é pouco conhecido. Não é falta de qualidade, é falta de referência”, afirma.
A construção de reputação, segundo ele, depende de presença contínua, consistência e narrativa, algo que só se consolida no médio e longo prazo.
Por que o vinho é um dos pontos sensíveis do acordo?
O vinho aparece com frequência como um dos setores mais sensíveis nas negociações entre Mercosul e União Europeia, especialmente pela resistência de países tradicionais produtores, como França, Itália e Espanha.
“É um setor altamente simbólico e cultural na Europa. Existe uma preocupação legítima em proteger regiões, denominações e modelos produtivos tradicionais”, explica França.
Segundo ele, a resistência não está ligada à qualidade do vinho brasileiro, mas à abertura de um mercado historicamente protegido.
“Curiosamente, quando o vinho brasileiro é provado, a recepção costuma ser bastante positiva”, observa.
Mentalidade já mudou, mesmo sem o acordo
Mesmo antes da entrada em vigor do tratado, o setor vitivinícola brasileiro já passa por mudanças relevantes. Para França, a principal delas é a mudança de mentalidade dos produtores.
“Exportar deixou de ser algo excepcional e passou a ser parte da estratégia de crescimento. Há mais investimento em certificações, narrativa, posicionamento e visão internacional”, diz.
Nicho premium e valor agregado
No médio e longo prazo, o vinho brasileiro tende a ganhar relevância não em volume, mas em valor agregado, especialmente em nichos premium. Para França, esse movimento tem impacto direto na imagem do Brasil no exterior.
“O Brasil dificilmente vai competir em volume com grandes produtores tradicionais, mas pode se destacar em diversidade de terroirs, inovação e sofisticação. O vinho comunica cultura, território e identidade”, afirma.
Além das commodities
Na avaliação do especialista, o vinho é um exemplo claro de como o acordo Mercosul–UE pode ir além das commodities tradicionais e abrir espaço para setores mais sofisticados da economia brasileira.
“O vinho mostra que o Brasil exporta não só commodities, mas também conhecimento, técnica e valor cultural. Se bem trabalhado, pode se tornar símbolo de uma nova fase das relações comerciais entre Mercosul e União Europeia”, conclui.












