A ampliação das incertezas em torno do Federal Reserve (Fed) tem provocado um movimento clássico de aversão ao risco nos mercados globais. Questionamentos sobre a independência da autoridade monetária americana reacenderam preocupações entre investidores, refletindo diretamente na precificação dos ativos: juros pressionados, dólar em movimento de enfraquecimento e o ouro renovando máximas históricas.
Segundo Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, o impacto imediato observado nos mercados está mais associado a um ruído político de curto prazo do que a uma mudança estrutural na condução da política monetária dos Estados Unidos.
“Esse movimento está diretamente relacionado a um ruído. Não é de hoje que existe pressão política sobre o Fed, especialmente quando se fala em cortes de juros”, afirmou.
Independência do Fed em teste
Apesar disso, Lima ressalta que qualquer sinal de interferência política sobre a atuação do Fed costuma gerar desconforto relevante no mercado, justamente por colocar em dúvida a independência da política monetária americana, um dos pilares da confiança global no dólar.
“Sempre que existe qualquer atrito envolvendo a condução independente da política monetária nos Estados Unidos, o mercado acaba se assustando um pouco.”
Na avaliação do analista, o cenário ainda não aponta para consequências mais profundas no curto prazo, mas exige atenção. Caso essas tensões se intensifiquem, a condução da política monetária pode se tornar mais complexa, elevando o nível de incerteza para investidores.
“Se esse movimento começar a se agravar, a condução da política monetária tende a ficar mais dificultosa. Esse é o principal temor do mercado.”
Ouro assume protagonismo como ativo de proteção
Nesse ambiente de maior cautela, o ouro voltou a se destacar como principal ativo de proteção, acumulando sucessivos recordes. Para Sidney Lima, o movimento segue uma lógica histórica bem conhecida pelos investidores institucionais.
“Em cenários de instabilidade, existem dois grandes ativos de proteção: o ouro e o dólar.”
A diferença do momento atual, segundo ele, é que a instabilidade está concentrada justamente na moeda americana. Com isso, parte relevante do capital global tem migrado para o metal precioso.
“Como a instabilidade está no dólar, muitos investidores acabam optando pelo ouro em vez da moeda americana.”
Fatores estruturais sustentam a alta do ouro
Além do fator conjuntural, o analista chama atenção para elementos estruturais que seguem sustentando a valorização do ouro no médio e longo prazo. Entre eles, o elevado nível de endividamento dos Estados Unidos, que continua em trajetória de crescimento.
“O endividamento americano é muito grande e segue aumentando. Os grandes investidores olham para isso como um fator estrutural de risco.”
Outro ponto relevante é a mudança na composição das reservas internacionais de diversos países. Segundo Lima, bancos centrais têm reduzido gradualmente a dependência do dólar e aumentado a alocação em ouro.
“Para dar valor às moedas, os países precisam de reservas. E o que temos visto é um movimento recorrente de bancos centrais optando pelo ouro em vez do dólar.”
Cenário segue favorável ao ouro
Para o especialista, a combinação entre ruídos políticos de curto prazo, dúvidas sobre a independência do Fed e fatores estruturais da economia americana cria um ambiente favorável para a continuidade da busca por proteção.
“Esses movimentos acabam validando a alta recorrente do ouro.”
Enquanto persistirem incertezas sobre a política monetária dos Estados Unidos e sobre a sustentabilidade fiscal do país, o metal precioso tende a permanecer como um dos principais destinos do capital global em momentos de maior tensão.














