O navio que desapareceu sob o gelo da Antártida voltou a ser visto mais de 100 anos depois, quase como se o tempo tivesse parado no fundo do mar. O Endurance, embarcação de Sir Ernest Shackleton, foi localizado no Mar de Weddell em um estado de conservação que surpreendeu a expedição responsável pela busca.
Como o navio Endurance foi encontrado após 107 anos?
A descoberta foi anunciada em 9 de março de 2022, exatamente no centésimo aniversário do funeral de Ernest Shackleton. Segundo a expedição Endurance22, o naufrágio foi localizado no fundo do Mar de Weddell, na Antártida, após uma das buscas arqueológicas marítimas mais aguardadas da história polar.
O achado encerrou um mistério que começou em 21 de novembro de 1915, quando o Endurance afundou depois de meses esmagado pela banquisa. As coordenadas registradas pelo capitão Frank Worsley ajudaram nas buscas, mas continham imprecisões que mantiveram o naufrágio fora do alcance por mais de um século.

Por que o navio de Shackleton nunca chegou à Antártida?
A história do Endurance começou em agosto de 1914, quando Sir Ernest Shackleton partiu da Ilha da Geórgia do Sul com 27 tripulantes. O objetivo era realizar a primeira travessia terrestre da Antártida, cruzando o continente de uma costa à outra e passando pelo Polo Sul.
A missão nunca alcançou o ponto de partida em terra firme. Em janeiro de 1915, o navio ficou preso no gelo do Mar de Weddell e passou cerca de 10 meses à deriva, até ser progressivamente esmagado pela pressão dos blocos antes de afundar.
Para contextualizar a dimensão humana dessa história, o canal Jornal O Globo, com 1,38 milhão de inscritos, publicou um vídeo com 239.660 visualizações sobre a descoberta do Endurance e a jornada de sobrevivência liderada por Shackleton após o naufrágio:
Qual tecnologia permitiu localizar o navio no Mar de Weddell?
A missão Endurance22 foi organizada pelo Falklands Maritime Heritage Trust e teve o arqueólogo marinho Mensun Bound como diretor de exploração. A equipe operou a partir do quebra-gelo SA Agulhas II, usando veículos submarinos autônomos de alta resolução em uma área de busca predefinida.
A operação reuniu equipamentos preparados para atuar em uma das regiões mais difíceis do planeta. Os elementos centrais da busca foram estes:
- Dois AUVs Sabertooth da Saab, veículos submarinos autônomos capazes de operar em grandes profundidades.
- Câmeras de alta definição, usadas para registrar o casco sem tocar no naufrágio.
- Capacidade de operação até 6.000 metros, mais do que suficiente para alcançar o fundo do Mar de Weddell.
- Área de busca guiada pelas coordenadas de Frank Worsley, mesmo com a margem de erro deixada em 1915.
Depois de mais de duas semanas de varredura, os drones submarinos localizaram o Endurance em 5 de março de 2022. O ponto exato ficava a apenas 9,4 quilômetros a sudeste das coordenadas originais registradas por Worsley.
Por que o navio apareceu quase intacto a 3.008 metros?
O Endurance repousa a 3.008 metros de profundidade, medida mais precisa do que o arredondamento para 3.000 metros usado em muitas divulgações. De acordo com a BBC, o naufrágio foi encontrado ereto, com o casco preservado e a inscrição Endurance ainda visível na popa.
A conservação tem explicação nas condições extremas do Mar de Weddell. Com águas próximas de menos 2 graus Celsius, organismos que costumam destruir madeira em outros mares, como os shipworms do grupo Teredo navalis, não conseguem sobreviver ali.
Como o modelo 3D mostrou o navio inteiro pela primeira vez?
Em outubro de 2024, uma reconstrução digital revelou o Endurance em detalhes inéditos. O modelo tridimensional foi criado a partir de mais de 25.000 imagens capturadas pelos drones submarinos durante a expedição de 2022.
O trabalho envolveu a empresa Voyis Imaging e a Universidade McGill, no Canadá. A reconstrução permitiu observar o navio de 44 metros de comprimento da proa à popa, incluindo mastros tombados, sulcos deixados no sedimento e o timão ainda em sua posição original.

O navio Endurance permanece como monumento no fundo da Antártida
O Endurance não será retirado do fundo do mar. Para descendentes de Shackleton e para a comunidade científica envolvida na preservação do naufrágio, o local funciona como um monumento natural às águas geladas que guardaram o navio por mais de um século.
A força desse achado não está apenas em reencontrar uma embarcação perdida. Ela está em ver como o gelo destruiu uma expedição em 1915, mas também preservou, em silêncio, uma das maiores histórias da exploração polar.

