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O hovercraft gigante de 56 metros que cruzava o Canal da Mancha em 35 minutos, levava 418 passageiros e 60 carros flutuando sobre um colchão de ar

Laila Por Laila
17/05/2026
Em Veículos

Antes de o Eurotúnel mudar a travessia entre Inglaterra e França, um hovercraft gigante cruzava o Canal da Mancha como se deslizasse sobre o mar. O SR.N4 transportava carros e centenas de passageiros sobre um colchão de ar, fazendo em 35 minutos uma rota que ferries convencionais levavam muito mais tempo para completar.

O que era o SR.N4 e como ele dominava o Canal da Mancha?

O SR.N4, batizado como classe Mountbatten em homenagem ao Lorde Mountbatten, foi desenvolvido a partir de 1965 pela Saunders-Roe, que se fundiria com a Vickers Supermarine para formar a British Hovercraft Corporation. Ventiladores centrífugos de 3,5 metros de diâmetro insuflavam ar sob o casco, criando uma câmara pressurizada que sustentava toda a embarcação acima da superfície da água. Conforme detalhado na Wikipedia, o projeto representou o ápice da engenharia de hovercrafts comerciais do século XX.

Essa câmara era mantida por uma saia periférica de borracha com 12 toneladas que circundava toda a embarcação. Ao cortar o fluxo de ar, a saia esvaziava e o hovercraft pousava suavemente sobre cinco patins de borracha distribuídos sob o casco, chamados de “pés de elefante”.

O SR.N4, batizado como classe Mountbatten em homenagem ao Lorde Mountbatten, foi desenvolvido a partir de 1965 pela Saunders-Roe, que se fundiria com a Vickers Supermarine para formar a British Hovercraft Corporation

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Quatro turbinas Rolls-Royce moviam o maior hovercraft comercial do mundo

O coração do SR.N4 eram quatro turbinas a gás Rolls-Royce Proteus, os mesmos motores usados no avião turboélice Bristol Britannia. Cada turbina gerava 3.400 cv nas versões iniciais e 3.800 cv na versão ampliada, acionando simultaneamente os ventiladores do colchão de ar e as hélices de propulsão montadas em pórtico acima do casco, com até 6,4 metros de diâmetro. Segundo o En-Academic, a configuração de quatro turbinas era operada por uma tripulação de três pessoas com controles idênticos aos de uma aeronave.

As quatro hélices eram orientáveis e podiam girar para qualquer direção, funcionando como o principal meio de propulsão, frenagem e manobra lateral. A cabine de comando era operada por uma tripulação de três pessoas, composta por comandante, engenheiro de voo e navegador.

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Como o SR.N4 evoluiu da versão Mk.I até os 56 metros do Mk.III?

O SR.N4 passou por três gerações ao longo de sua vida operacional no Canal da Mancha. A versão original, o Mk.I, media 39,68 metros e transportava 254 passageiros e 30 carros. A transformação mais radical veio com o Mk.III, resultado de um alongamento de 16,9 metros realizado após 1976, que levou a embarcação a 56,38 metros de comprimento e 23 metros de largura, o equivalente a dois Boeing 737 enfileirados. A conversão de cada exemplar custou cerca de £ 5 milhões.

A tabela abaixo compara as três versões nos principais atributos operacionais:

Versão Comprimento Passageiros Carros Velocidade máx.
Mk.I 39,68 m 254 30 120 km/h
Mk.II 39,68 m 282 37 130 km/h
Mk.III 56,38 m 418 60 120+ km/h

O recorde de 22 minutos no Canal da Mancha que nenhum ferry igualou

A rota Dover–Boulogne, de 56 km, era percorrida em aproximadamente 35 minutos nas condições normais de operação. Em dias de verão, a frota operava até 14 viagens de ida e volta por dia. O pico de desempenho veio em 14 de setembro de 1995, quando o exemplar GH-2007 Princess Anne completou a travessia em 22 minutos, estabelecendo o recorde absoluto de um hovercraft comercial transportando carros pelo Canal da Mancha.

O canal Stuff Zoom, com 839 inscritos e especializado em registros históricos de transportes, reuniu imagens originais de 1993 do SR.N4 em operação na rota Dover–Calais, com 13.477 visualizações. No vídeo a seguir, é possível ver de perto todo o processo de embarque, inflação da saia, decolagem e pouso sobre a água:

Quais foram os principais marcos do SR.N4 em 32 anos no Canal da Mancha?

Entre agosto de 1968 e outubro de 2000, o SR.N4 acumulou décadas de operação ininterrupta, estabelecendo referências de velocidade e capacidade que nenhum outro meio de transporte de superfície conseguiu replicar. Segundo o James Hovercraft, a longevidade operacional e os recordes estabelecidos colocam a embarcação num patamar isolado na história do transporte marítimo comercial.

Os marcos mais relevantes da trajetória do SR.N4 ao longo de 32 anos de operação:

  • Primeiro serviço comercial: 1º de agosto de 1968, rota Dover–Boulogne, pela Seaspeed
  • Recorde de travessia: 22 minutos, Princess Anne, 14 de setembro de 1995
  • Último serviço: 1º de outubro de 2000, encerrado pela Hoverspeed
  • Exemplar preservado: Princess Anne, Hovercraft Museum, Lee-on-Solent, Hampshire
  • Capacidade máxima: 418 passageiros e 60 carros na versão Mk.III

Por que o maior hovercraft do Canal da Mancha deixou de operar em 2000?

As duas operadoras originais, Hoverlloyd e Seaspeed, fundiram-se em 1981 para formar a Hoverspeed, que operou a frota até 1º de outubro de 2000. A decisão de encerrar as operações foi econômica: a abertura do Eurotúnel em 1994 e a crescente competição dos ferries de alta velocidade tornaram a manutenção dos SR.N4 inviável financeiramente.

O único exemplar Mk.III sobrevivente, o Princess Anne, foi preservado no Hovercraft Museum em Lee-on-Solent, Hampshire, no Reino Unido, como testemunho de uma era do transporte marítimo que não voltou a ser replicada.

O recorde de 22 minutos do Princess Anne no Canal da Mancha nunca foi superado

O Canal da Mancha segue sendo cruzado por ferries e pelo Eurotúnel, mas nenhum hovercraft comercial de porte equivalente ao SR.N4 foi construído desde o encerramento das operações em 2000. A tecnologia de saia periférica, os sistemas de propulsão orientável e a integração entre controles aeronáuticos e náuticos desenvolvidos para o projeto nunca foram replicados em escala comercial.

Os 22 minutos estabelecidos pelo Princess Anne em 14 de setembro de 1995 permanecem como o registro máximo de velocidade numa travessia que, por décadas, definiu o estado da arte do transporte marítimo de superfície.

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