O eleitor que se autodeclara estritamente de centro, num cenário de polarização consolidada, é quem vai decidir as eleições de outubro. Trata-se de um grupo minoritário, mas ainda assim numericamente expressivo. Levantamentos como Datafolha, de dezembro de 2025, apontam que esses moderados representam cerca de 11% do eleitorado, algo em torno de 17 milhões de indivíduos. Trata‑se de um contingente cuja volatilidade tem impacto estrutural nas disputas nacionais, especialmente porque pode migrar seu voto sem levar em conta qualquer tipo de fidelidade ideológica.
Esse segmento, composto sobretudo por classes médias urbanas, prioriza segurança pública e demonstra fadiga com a carga tributária. A preocupação com a criminalidade (em primeiro lugar nos estudos sobre os principais problemas brasileiros) reflete uma percepção de que as facções de bandidos estão se imiscuindo na sociedade e controlando negócios que deveriam ser legais. Embora o Mapa da Segurança Pública 2025 registre queda de 6,33% nos homicídios dolosos em 2024, a sensação de insegurança permanece elevada, alimentada por crimes patrimoniais, violência urbana e baixa confiança nas autoridades.
A insatisfação com o Estado também se expressa na questão tributária. Embora o governo afirme ter mantido uma carga de impostos em torno de 33% do PIB nos últimos anos, pesquisas de opinião mostram que a maioria dos brasileiros considera os tributos altos e os serviços públicos insuficientes. Além disso, cresce o entendimento de que a máquina estatal é gigantesca e deveria ser reduzida para diminuir a tributação de pessoas físicas e de empresas. Entre os eleitores de centro, 20% a 26% defendem cortes fiscais e maior eficiência estatal. Essa percepção se conecta diretamente à avaliação do governo: ao longo de 2025, pesquisas Datafolha registraram entre 28% e 33% de avaliação positiva da gestão federal, enquanto a avaliação negativa variou de 37% a 40%, com desgaste mais acentuado entre a classe média urbana, o núcleo típico desse eleitorado.
Quando observamos o que ocorre dentro da classe média propriamente dita, (aqueles que ganham acima de dez salários-mínimos), o índice de aprovação do governo caiu de 32% para 18% entre dezembro de 2024 e fevereiro de 2025. Entre evangélicos, a aprovação recuou de 30% para 21%; já entre católicos, o tombo foi de 48% para 24% no mesmo período. Do ponto de vista regional, o governo enfrenta dificuldades no Sul, onde a reprovação chegou a 40% e a aprovação a apenas 29% em agosto de 2025. Mesmo no Nordeste, tradicional bastião de apoio ao PT, a aprovação caiu de 49% para 33% entre dezembro de 2024 e fevereiro de 2025. Esses números mostram que o desgaste não está restrito a um grupo específico, mas se espalha justamente por segmentos que compõem o centro urbano e que são mais sensíveis a temas como segurança, eficiência administrativa e custo de vida.
Esse conjunto de dados reforça a leitura de que o chamado centro funciona menos como uma identidade ideológica e mais como um termômetro de desempenho do Planalto. Trata‑se de um eleitorado que penaliza governos incapazes de responder às demandas mais urgentes de administração e que rejeita extremismos. A avaliação negativa persistente do governo nesses temas, documentada ao longo de 2025, ajuda a explicar por que esse grupo permanece volátil, cético e cada vez mais distante de discursos ideológicos tradicionais.
Diante desse quadro, cenário atual é mais favorável a candidaturas que se apresentem como alternativas ao governo e que dialoguem diretamente com as frustrações do eleitorado de centro (especialmente em temas como segurança pública, eficiência administrativa e custo de vida). Nesse sentido, figuras associadas ao discurso de ordem e crítica à gestão federal, como Flávio Bolsonaro, podem encontrar terreno fértil entre esses eleitores, que demonstram ceticismo em relação ao desempenho do governo nesses tópicos. Ao mesmo tempo, é um cenário é desafiador para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, cuja avaliação negativa nesta seara permanece elevada e cuja capacidade de reconquistar o centro urbano depende de avanços concretos em áreas nas quais a percepção pública ainda se mostra pessimista.
*Coluna escrita por Aluizio Falcão Filho, é jornalista, articulista e publisher do portal Money Report. Foi diretor de redação da revista Época e diretor editorial da Editora Globo, com passagens por veículos como Veja, Gazeta Mercantil, Forbes e a vice-presidência no Brasil da agência de publicidade Grey Worldwide
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