Mesmo com a crescente presença da inteligência artificial no ambiente corporativo, a adoção da tecnologia nas áreas financeiras das empresas ainda é limitada. Embora o discurso sobre inovação e automação esteja cada vez mais presente nas estratégias empresariais, na prática muitas organizações continuam operando processos críticos com forte dependência de planilhas e validações manuais.

Dados do Panorama do Contas a Pagar 2026 mostram que apenas 16% das empresas afirmaram ter investido com orçamento dedicado em soluções de inteligência artificial nos últimos 12 meses.
A discrepância revela um paradoxo: enquanto o mercado discute o impacto da IA sobre produtividade, competitividade e tomada de decisão, a implementação efetiva da tecnologia no backoffice financeiro ainda enfrenta obstáculos estruturais dentro das organizações.
Para Isis Abbud, co-CEO e cofundadora da Qive, o principal problema está na forma como a tecnologia ainda é tratada nas empresas.
“A IA é frequentemente tratada como um experimento ou uma iniciativa lateral, sem governança clara e sem orçamento dedicado”, afirma.
Segundo ela, quando não há dados confiáveis e integração de processos, os times acabam optando por manter métodos tradicionais.
Inteligência artificial no financeiro: a ilusão da digitalização
Um dos fenômenos mais comuns nas empresas brasileiras é o que especialistas chamam de “digitalização superficial”. Na prática, muitos processos deixam de ser físicos, mas continuam funcionando da mesma forma que antes.
Em vez de automação real, as empresas apenas transferem tarefas para sistemas digitais, mantendo etapas manuais no fluxo de trabalho. Segundo Abbud, isso cria uma percepção equivocada de maturidade tecnológica.
“Existe uma ilusão no mercado: as companhias se declaram data-driven ou AI-ready, mas na prática apenas digitalizam a ação de registrar o passado, como lançar entradas, conferir e arquivar”, explica.
O resultado é que atividades críticas, como conciliações, validações e controle de pagamentos, ainda dependem fortemente de planilhas e retrabalho manual.
O paradoxo da infraestrutura digital no Brasil
O Brasil possui uma das infraestruturas fiscais mais digitalizadas do mundo, com emissão eletrônica de notas fiscais e integração com sistemas governamentais. Mesmo assim, o backoffice financeiro ainda apresenta baixa automação.
Segundo a especialista, o problema não está apenas na tecnologia disponível, mas na estrutura de dados e na integração entre sistemas.
Principais gargalos para adoção de IA no financeiro
| Gargalo | Impacto na operação |
|---|---|
| Dados desestruturados | dificulta análise e automação |
| Falta de integração entre sistemas | cria retrabalho e inconsistências |
| Ferramentas paralelas | gera fricção no fluxo operacional |
| Ausência de governança | projetos ficam isolados |
Segundo Abbud, sem dados confiáveis e processos integrados, a tecnologia pode acabar amplificando erros em vez de gerar eficiência.
“Se não houver dados íntegros e estruturados, a adoção de tecnologia apenas automatiza erros e aumenta a insegurança.”
Ineficiências financeiras podem consumir até 1% da receita
Outro ponto destacado no estudo é o impacto financeiro da falta de automação. De acordo com a análise, ineficiências operacionais podem consumir até 1% da receita das empresas.
Esse custo geralmente não aparece de forma explícita nos relatórios financeiros, mas se acumula ao longo das operações.
Como as ineficiências aparecem no dia a dia
| Tipo de falha | Consequência para a empresa |
|---|---|
| Pagamentos duplicados | perda direta de caixa |
| Atrasos em pagamentos | multas e juros |
| Pagamentos indevidos | inconsistências contábeis |
| Falta de controle operacional | retrabalho e custos administrativos |
Segundo a especialista, muitas dessas falhas são comuns em operações financeiras com grande volume de transações.
“Esses custos são frequentemente invisíveis no dia a dia, mas silenciosamente se acumulam e podem ter impacto relevante.”
Automação financeira e impacto na margem das empresas
A eficiência operacional também está diretamente ligada à margem das companhias. Segundo Abbud, o financeiro manual ou parcialmente manual amplia três tipos de custos dentro das organizações.
Custos gerados pela falta de automação
| Tipo de custo | Origem |
|---|---|
| Custo operacional | mais pessoas para executar tarefas repetitivas |
| Custo de falhas | erros, multas e inconsistências |
| Custo financeiro | perda de previsibilidade de caixa |
Para a especialista, muitas empresas acreditam que a segurança está na conferência manual. No entanto, em operações de grande escala, a segurança tende a vir da integração de processos e rastreabilidade de dados.
Impacto diferente entre pequenas e grandes empresas
A falta de automação afeta empresas de todos os portes, mas os efeitos variam de acordo com a estrutura da organização.
Como o problema aparece em empresas de diferentes portes
A falta de automação financeira afeta empresas de todos os tamanhos, mas os impactos aparecem de maneiras diferentes dependendo da estrutura da organização.
- Nas pequenas e médias empresas, o efeito costuma surgir primeiro no caixa. Um pagamento realizado de forma incorreta, um atraso ou uma conciliação que não fecha pode rapidamente comprometer a capacidade de expansão do negócio. Como os times são menores e os processos muitas vezes dependem diretamente do dono ou do CFO, a falta de automação tende a prender a liderança em tarefas operacionais, reduzindo a velocidade das decisões.
- Já nas grandes corporações, o desafio assume outra dimensão. O problema deixa de ser apenas operacional e passa a envolver governança. Com múltiplas unidades de negócio, diferentes fornecedores e diversos sistemas financeiros funcionando em paralelo, a gestão de dados e processos se torna mais complexa. Sem integração adequada entre os sistemas e uma base de dados confiável, o volume de transações pode ampliar riscos de erro, retrabalho e inconsistências financeiras.
Nesse contexto, a ausência de automação não apenas reduz eficiência, mas também dificulta o controle e a visibilidade das operações financeiras em larga escala.
Financeiro manual pode limitar o crescimento das empresas
Com o aumento da complexidade das operações empresariais, a estrutura financeira se torna um fator decisivo para a expansão das companhias. Segundo Abbud, tentar escalar negócios mantendo processos analógicos pode se tornar um limite estrutural para o crescimento.
“A ambição estratégica sem base operacional sólida não escala.”
Em um ambiente de negócios que exige decisões rápidas e dados confiáveis, manter processos financeiros manuais deixa de ser apenas uma ineficiência operacional e passa a representar um risco para a continuidade e competitividade das empresas.
Inteligência artificial no financeiro e o desafio da transformação digital
Embora a inteligência artificial esteja no centro do debate sobre inovação empresarial, a implementação efetiva da tecnologia depende de fatores estruturais.
Entre eles:
-
qualidade dos dados;
-
integração de sistemas;
-
governança tecnológica;
-
estratégia clara de automação.
Sem esses elementos, a transformação digital tende a permanecer limitada a iniciativas isoladas.
E, nesse cenário, o avanço da inteligência artificial no financeiro continuará sendo mais discutido nas estratégias corporativas do que efetivamente aplicado nas operações das empresas.












