Segundo Celson Camillo, professor da Universidade Federal de Goiás (UFG) e pesquisador com atuação na Carnegie Mellon University, o uso da tecnologia já ocorre em diferentes frentes estratégicas.
“A IA atua tanto na dimensão informacional quanto na guerra física“, avalia o especialista.
Camillo explica que a tecnologia é utilizada para influenciar comportamentos em ambientes digitais, reforçar narrativas e também aumentar a autonomia de equipamentos militares, como drones e veículos aéreos não tripulados.
“A IA já está sendo usada em várias camadas da guerra, desde recomendações e influências em canais digitais para defender narrativas ou provocar comportamento social até o incremento de autonomia de drones, VANTs ou artefatos bélicos na guerra física”, afirma.
Inteligência artificial na guerra pode alterar o equilíbrio de poder
O avanço da inteligência artificial também pode alterar o equilíbrio estratégico entre países. Segundo o especialista, tecnologias desse tipo costumam ter forte origem ou aplicação militar.
Camillo observa que a capacidade de desenvolver sistemas avançados pode gerar vantagem significativa em disputas geopolíticas.
Ele explica que a inteligência artificial se torna um diferencial relevante quando combinada com grande volume de dados e capacidade computacional.
Países que conseguem reunir essas duas condições, dados em escala e infraestrutura tecnológica, passam a ter maior eficiência na tomada de decisões militares.
“Quem reúne dados em volume e recursos computacionais tem elementos que apoiam decisões com mais eficiência e eficácia nos seus objetivos”, afirma.
Disputa tecnológica já estava em curso
Para o professor, o conflito atual entre EUA e Irã não mudam o rumo dos investimentos globais em inteligência artificial militar. Esses programas já são considerados prioridade por várias potências.
Camillo ressalta que a disputa por poder geopolítico passou a envolver novas dimensões tecnológicas.
Ele afirma que hoje a soberania tecnológica inclui capacidades em inteligência artificial, processamento de dados e infraestrutura digital.
Guerras podem se tornar mais rápidas
A aplicação da IA também pode alterar a dinâmica dos conflitos. Sistemas capazes de analisar dados, prever movimentos e gerar recomendações podem acelerar decisões militares.
Apesar disso, o especialista afirma que é difícil prever como essas tecnologias afetarão o resultado das guerras.
Isso porque diferentes cenários podem surgir, desde disputas tecnológicas assimétricas até confrontos entre grandes potências com níveis semelhantes de avanço tecnológico.
“São várias as combinações possíveis de contexto. Para cada cenário espera-se um resultado diferente, mas é difícil prever o resultado final”, afirma.
Menos presença humana no campo de batalha
Outra tendência apontada por Camillo é a redução da presença humana direta em conflitos armados.
O uso de drones e veículos autônomos deve se tornar cada vez mais comum, principalmente em operações aéreas.
“Ações conduzidas por sistemas remotos ou automatizados tendem a substituir parte das intervenções militares feitas por tropas no terreno. A expectativa é que esse movimento continue até que robôs terrestres e outros sistemas autônomos estejam prontos para operar em maior escala“, afirma.
Impactos no setor de tecnologia
O avanço da inteligência artificial aplicada à defesa também pode gerar reflexos no setor de tecnologia e no mercado global.
Empresas ligadas a semicondutores, processamento de dados, cibersegurança e infraestrutura digital podem ser beneficiadas por novos investimentos.
No entanto, Camillo ressalta que o impacto econômico pode variar ao longo do tempo.
“No curto prazo, tensões geopolíticas e incertezas no setor energético podem gerar efeitos negativos para os mercados“, analisa.
Já no médio prazo, o aumento dos investimentos em tecnologia pode impulsionar alguns segmentos.
Corrida tecnológica deve continuar
Historicamente, o setor de defesa sempre teve papel relevante no desenvolvimento de novas tecnologias.
Segundo o especialista, esse padrão tende a continuar no caso da inteligência artificial. Camillo afirma que governos devem ampliar investimentos em ferramentas que garantam soberania tecnológica e vantagem estratégica.
“Embora a inteligência artificial não dependa exclusivamente do setor militar para evoluir, a área de defesa continuará sendo um dos motores de inovação“, conclui.













