O avanço do crédito privado no Brasil marca uma mudança estrutural na forma como empresas buscam financiamento e investidores alocam capital. Durante muito tempo, o crédito esteve concentrado no sistema bancário, especialmente entre grandes instituições e grandes tomadores. Esse modelo, segundo Gustavo Blasco, CEO do Grupo GCB, vem perdendo espaço para uma dinâmica mais pulverizada no mercado de capitais.
No programa Mercado & Beyond, apresentado por Paula Moraes, Blasco afirmou que esse movimento representa uma transferência de relevância do balanço dos bancos para instrumentos distribuídos no mercado. A mudança, porém, não elimina o papel das instituições financeiras, já que muitas delas seguem atuando na estruturação e distribuição das operações.
“É com certeza uma transferência de poder, vamos falar assim, de mercado do sistema bancário pro mercado de capitais”, afirma Gustavo Blasco.
Renda fixa não significa ausência de risco
Um dos pontos centrais da entrevista foi a percepção do investidor sobre o crédito privado. Blasco explicou que a associação com renda fixa é uma simplificação válida, já que o acesso a esse mercado ocorre por meio de títulos de dívida com condições previamente definidas. O problema surge quando o investidor interpreta renda fixa como sinônimo de risco zero ou ausência de oscilação.
Essa leitura pode levar a decisões equivocadas, principalmente em ativos negociados no mercado secundário ou ligados a empresas de menor porte. Para o executivo, o investidor precisa observar a qualidade do emissor, a existência de garantias, o uso dos recursos captados e a adequação da taxa de retorno ao risco assumido.
“A renda fixa nada mais é do que um título de dívida que tem condições pré-fixadas de pagamento”, explica Gustavo Blasco.
Investidor precisa avaliar garantia, prazo e diversificação
Blasco destacou que a busca por taxas mais elevadas é natural no comportamento do investidor, mas precisa vir acompanhada de análise. No crédito privado, uma taxa maior pode refletir menor liquidez, empresa menos conhecida, projeto mais arrojado ou necessidade de capital em condições diferentes das disponíveis no sistema bancário. Isso não significa, por si só, fraude ou má qualidade do ativo.
Para ele, a decisão deve considerar o risco do empreendimento, a capacidade de pagamento, a estrutura de garantias e o peso daquele investimento dentro da carteira. A diversificação, nesse contexto, é um elemento importante para que eventuais perdas pontuais possam ser compensadas por operações bem-sucedidas.
“Há garantias ou não? O principal de tudo é entender. Essa dívida é sem garantia, não tem problema. Você entendeu o que é sem garantia e que isso já era um risco maior”, pontua Gustavo Blasco.
Mercado de capitais pode ampliar o financiamento da economia real
Ao analisar o impacto econômico do crédito privado, Blasco afirmou que a ampliação do mercado de capitais pode elevar o potencial de crescimento do país. Na visão do executivo, grandes projetos econômicos dependem de capacidade de financiamento, disposição ao risco e mecanismos que conectem investidores a empresas em expansão.
Esse ponto ganha relevância especialmente para pequenas e médias empresas, que historicamente enfrentam mais dificuldade de acesso ao crédito bancário. Para Blasco, permitir que companhias busquem financiamento fora dos bancos pode aumentar a capilaridade do crédito e destravar projetos em setores como incorporação imobiliária, agro, indústria e serviços.
“Desconheço um grande empreendimento na humanidade que tenha sido feito sem uma grande capacidade de financiamento”, avalia Gustavo Blasco.
Liquidez ainda é desafio para o crédito privado
Apesar do crescimento recente, a liquidez segue como um dos principais desafios do crédito privado, especialmente em operações de prazos mais longos. Blasco afirmou que parte relevante desse mercado ainda funciona com pouca ou nenhuma liquidez no mercado secundário, o que exige do investidor disposição para manter o ativo até o vencimento.
Mesmo nesse cenário, o executivo avalia que o crescimento das plataformas mostra a existência de demanda por alternativas de financiamento e investimento. A construção de mercados secundários mais ativos, somada ao avanço regulatório, pode ampliar a profundidade desse segmento e facilitar a entrada de novos investidores.
“É um mercado hoje praticamente zero liquidez. E mesmo assim tem investidor que compra ativo de 4, 5 anos”, observa Gustavo Blasco.
Regulação e tecnologia podem destravar novo ciclo
Na leitura de Blasco, a regulação teve avanços importantes na última década, mas ainda há espaço para reduzir custos e permitir emissões menores. Ele citou o crowdfunding de investimento como um instrumento que possibilitou operações mais acessíveis, ao dispensar parte dos custos que tradicionalmente restringiam o crédito privado a grandes empresas.
A tecnologia também aparece como vetor de transformação. Segundo o executivo, plataformas digitais, blockchain e inteligência artificial já ajudam na distribuição, escrituração, análise de crédito e diligência. O próximo avanço pode estar na originação e no travamento de garantias, o que tende a tornar o processo mais eficiente e ampliar o acesso de empresas menores ao mercado.
“A tecnologia ela já permite essa diluição absurda de custo”, ressalta Gustavo Blasco.
Governança será decisiva para a qualidade das operações
Com a expansão do mercado, cresce também a responsabilidade das plataformas na seleção dos emissores e na estruturação das operações. Blasco afirmou que empresas menores exigem diligência mais profunda, porque o investidor muitas vezes confia mais na plataforma do que no próprio emissor. Por isso, governança, curadoria e análise do uso dos recursos se tornam pontos centrais.
O executivo também destacou que a demanda por crédito pode vir de empresas em diferentes condições financeiras, o que aumenta a necessidade de filtros internos. Em sua avaliação, o desafio não é evitar risco, mas apresentar esse risco com clareza e estruturar operações compatíveis com o retorno oferecido ao investidor.
“Muitas vezes o investidor ele confia mais na plataforma do que no emissor”, diz Gustavo Blasco.
Futuro do crédito privado passa pelas pequenas e médias empresas
Para Blasco, o próximo estágio do crédito privado no Brasil será levar ao investidor a possibilidade de financiar emissores de diferentes portes, de grandes companhias a empresas regionais. Esse movimento, segundo ele, pode reduzir o spread bancário também para pequenas e médias empresas, repetindo o que ocorreu com grandes companhias que passaram a acessar o mercado de capitais.
A consolidação desse mercado dependerá de regulação adequada, transparência, desenvolvimento de liquidez e capacidade de avaliação de risco. Em um ambiente de juros altos, restrições de crédito bancário e necessidade de financiamento da economia real, o crédito privado tende a ocupar espaço crescente na agenda de investidores e empresas brasileiras.

