A escalada da guerra envolvendo o Irã recolocou no centro do debate um ponto sensível para a economia brasileira: a dependência de cadeias externas de energia, fertilizantes e insumos industriais. Com o risco sobre o Estreito de Ormuz, rota estratégica para petróleo, gás e produtos químicos, o impacto potencial vai além do barril e pode chegar à indústria, ao agronegócio e, em última instância, aos alimentos.
O estreito responde por cerca de 20% do fluxo global de petróleo e gás, e a interrupção do tráfego levou a Agência Internacional de Energia a coordenar nova liberação emergencial de estoques.
Guerra no Irã é tema do BM&C Strike
Em entrevista ao Strike, da BM&C News, André Passos, presidente-executivo da Abiquim, disse que o problema não se limita ao petróleo e pode se transformar em um choque industrial de alcance mais amplo. Segundo ele, a pressão atinge tanto os derivados usados como matéria-prima pela indústria quanto os fertilizantes nitrogenados exportados por países da região.
“A gente fala de um choque industrial global”, afirmou Passos.
A avaliação ocorre em um momento em que a própria oferta global de fertilizantes já mostra sinais de estresse com a disrupção logística em Ormuz. A China, por exemplo, antecipou a liberação de reservas comerciais de fertilizantes para conter os efeitos da crise, enquanto executivos do setor alertam para alta de preços e risco à oferta global.
Para o Brasil, a vulnerabilidade é dupla. O país é forte no agro e produtor relevante de petróleo, mas ainda depende da importação de derivados e de insumos essenciais à sua estrutura produtiva. Na entrevista, Passos destacou que Omã e Irã estão entre os fornecedores de fertilizantes nitrogenados ao Brasil e que um bloqueio prolongado em Ormuz comprometeria diretamente esse fluxo.
Guerra no Irã: gás caro trava competitividade industrial
Na visão do executivo, esse quadro escancara uma contradição brasileira. Embora o país tenha produção de óleo e gás, a estrutura doméstica ainda não é suficiente para transformar esse potencial em vantagem competitiva para a indústria. Ele citou que medidas recentes do governo para o diesel ajudam no curto prazo, mas não resolvem o problema estrutural.
O ponto central, segundo Passos, é a falta de investimentos em refino, infraestrutura de escoamento e processamento de gás natural, além de entraves regulatórios.
Durante a conversa, o presidente da Abiquim afirmou que o Brasil convive com um custo de gás natural muito acima do observado em economias concorrentes.
“Enquanto nos Estados Unidos o insumo gira em torno de US$ 2,5 a US$ 3 por milhão de BTU, no Brasil esse mesmo custo está perto de US$ 15 por milhão de BTU. Essa diferença, na avaliação dele, corrói a competitividade da indústria petroquímica e de fertilizantes instalada no país“, explica.
Dependência de fertilizantes segue elevada
Passos também chamou atenção para o fato de que parte relevante do gás produzido no pré-sal não chega à indústria. Segundo ele, o problema não é falta de potencial, mas falhas regulatórias, ausência de infraestrutura e incentivos inadequados ao longo da cadeia. O executivo afirmou que boa parte do gás segue reinjetada nas plataformas, enquanto faltam gasodutos e unidades de processamento em terra para transformar esse recurso em insumo industrial.
Esse ponto, para a Abiquim, se conecta diretamente ao debate sobre fertilizantes. Passos avaliou que o Brasil continua altamente dependente de importações mesmo depois do choque provocado pela guerra entre Rússia e Ucrânia.
“A crise atual mostra que o país ainda não construiu uma resposta de longo prazo para reduzir essa fragilidade“, destaca.
Segundo o executivo, mesmo que novos investimentos em fábricas de fertilizantes fossem iniciados agora, os efeitos não seriam imediatos. Além do tempo de maturação dos projetos, a competitividade da produção local seguiria condicionada ao preço do gás natural.
“Sem oferta abundante e preço competitivo, o produtor brasileiro tende a continuar importando“, destaca.
Brasil perde espaço na indústria
A entrevista também avançou para um ponto mais amplo: o reposicionamento da indústria global em meio a um ambiente de maior protecionismo e disputa geopolítica. Para Passos, o mundo já se afastou do modelo de liberalização irrestrita que marcou o pós-Guerra Fria. Ele argumentou que países como China e Estados Unidos preservaram ou reforçaram instrumentos de política industrial, enquanto o Brasil perdeu coordenação estratégica ao longo das últimas décadas.
Na avaliação do presidente da Abiquim, esse vazio ajudou a acelerar a perda de densidade industrial no país. Ele lembrou que a participação das importações no consumo brasileiro de químicos saiu de cerca de 30%, quinze anos atrás, para perto de 50% atualmente, movimento que, segundo ele, só não avançou ainda mais por causa de medidas tarifárias e ações contra práticas desleais de comércio.
O setor químico também vem defendendo alívio tributário sobre insumos como forma de mitigar parte dessa pressão competitiva. Em fevereiro, a própria Abiquim informou que o governo trabalhava para garantir R$ 3 bilhões no orçamento de 2026 para o setor químico.
Guerra no Irã expõe desafio estrutural brasileiro
Ao fim da entrevista, Passos resumiu o desafio brasileiro em uma frase: “Nós vamos continuar importando”, caso o país não avance em uma política mais consistente para gás natural, refino, fertilizantes e indústria. Para ele, a repetição de choques internacionais em intervalos cada vez menores mostra que o problema não é conjuntural, mas estratégico.
A guerra do Irã, portanto, recoloca pressão sobre uma agenda que vai muito além da geopolítica. O tema envolve segurança energética, política industrial, competitividade e abastecimento.
Para um país que depende dos fertilizantes para sustentar a produtividade do agro e do gás para fortalecer sua base química, a crise no Oriente Médio volta a expor uma pergunta incômoda: o Brasil seguirá reagindo aos choques externos ou conseguirá transformar seu potencial energético em política de Estado.













