Eu acompanhei de perto a evolução do sistema financeiro brasileiro. Vivi o pregão físico, a informatização das bolsas, planos econômicos, hiperinflação, crises cambiais, moratórias, quebras de bancos, escândalos corporativos e choques globais. O mercado sempre conviveu com excessos, erros, ganância e correções dolorosas. Nada disso é novidade.
O que chama atenção no caso do Banco Master, recentemente analisado pela The Economist, é que não estamos diante de mais um episódio de imprudência financeira. Trata-se de algo qualitativamente diferente: uma crise que deixa o ambiente de mercado e passa a tocar diretamente a credibilidade das instituições que sustentam a República.
Bancos quebram. Sempre quebraram. Crescimentos artificiais, promessas de rentabilidade fora da curva e estruturas frágeis de ativos fazem parte do manual clássico das crises financeiras. Ao longo dos anos, vi esse filme se repetir inúmeras vezes.
O Banco Master seguiu esse roteiro até certo ponto. O enredo muda quando, em vez de o próprio mercado impor seus limites, surgem tentativas de blindagem política e institucional. Quando a matemática deixa de ser o fator decisivo e o poder entra em cena, o problema deixa de ser apenas financeiro.
Mercados erram. Instituições não podem errar por conveniência.
É justamente aqui que essa crise se torna singular. Historicamente, fraudes financeiras terminam nos balanços, nos tribunais ou nas páginas policiais. Raramente avançam sobre a estrutura dos Poderes do Estado. No caso do Banco Master, o noticiário passou a revelar uma teia de relações envolvendo figuras do Judiciário, do Legislativo e do Executivo.
Independentemente do desfecho jurídico, o simples fato de essas conexões existirem, e serem publicamente debatidas, já produz um dano relevante. Não é necessário provar conluio para que a dúvida se instale. E a dúvida, no mundo institucional, corrói.
A ganância sempre foi parte do mercado. Em doses controladas, ela move investimentos. Fora de controle, destrói valor. O que preocupa neste episódio é quando a ganância privada passa a operar sob a percepção de que as regras podem ser relativizadas por influência.
Quando isso acontece, o prejuízo deixa de ser individual. Ele passa a ser institucional. O sistema financeiro perde credibilidade. Autoridades reguladoras são questionadas. O Judiciário entra no radar da suspeita. E o cidadão comum passa a duvidar da imparcialidade do jogo.
A crise deixa de ser do banco e passa a ser do sistema.
Depois de tantos ciclos vividos, posso afirmar com convicção: esta não é uma crise comum. Não é apenas sobre má gestão, fraude contábil ou risco excessivo. É uma crise que expõe o ponto mais sensível de qualquer democracia, a confiança na separação, na independência e na integridade dos Poderes.
Quando um banco quebra e arrasta consigo suspeitas sobre relações institucionais, o dano é muito mais profundo do que qualquer rombo financeiro. Ele atinge o coração do contrato social: a crença de que as regras valem para todos, independentemente do tamanho do patrimônio ou da proximidade com o poder.
O colapso do Banco Master deixa uma lição dura. Fraudes financeiras podem ser absorvidas pelo mercado com o tempo. Crises institucionais, não. Elas exigem transparência, investigação rigorosa e respostas claras do Estado.
Não se trata de demonizar o sistema financeiro nem de generalizar comportamentos. Trata-se de preservar aquilo que sustenta tudo: credibilidade, previsibilidade e confiança. A história mostra que os mercados se recuperam. Democracias fragilizadas, nem sempre.
Quando um banco quebra sozinho, o mercado aprende. Quando a quebra envolve o poder, quem aprende é a sociedade inteira, quase sempre da forma mais dolorosa.
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