Desde hoje, 22 de julho, vigora a tarifa adicional de 25% que os Estados Unidos impuseram ao Brasil com base na Seção 301. O debate público se organizou em torno do que ficou de fora: café, carne bovina, suco de laranja, petróleo, aeronaves. É compreensível — são os produtos que o brasileiro reconhece na prateleira e no telejornal. Mas é o inverso do que a análise pede. A pergunta relevante não é o que foi poupado. É o que foi escolhido, e por quê.
O agregado sugere um evento pequeno. Segundo a ApexBrasil, a medida atinge 19,2% do que o Brasil vende aos americanos, algo como US$ 7,4 bilhões — modesto diante dos US$ 348,7 bilhões que o país exportou em 2025. Quem lê apenas o total conclui que o Brasil aguenta. Quem desce ao mapa descobre outra coisa: o dano não se distribui, ele se concentra. São Paulo e Santa Catarina respondem por 52% do impacto. Na leitura da Fiesc, apenas 5% das exportações catarinenses aos Estados Unidos escaparam integralmente de alguma taxação. Uma tarifa macroeconomicamente irrelevante pode ser municipalmente devastadora.
Comece pelas rochas ornamentais, setor que quase nunca aparece na conversa nacional. Os Estados Unidos absorveram 51,2% das exportações brasileiras de rochas no primeiro semestre de 2026 — US$ 364,3 milhões, já 14,4% abaixo do ano anterior. Do granito importado pelos americanos, 36% vem do Brasil. E vem, sobretudo, de Cachoeiro de Itapemirim, Colatina, Barra de São Francisco, Vargem Alta, Castelo. São municípios em que a serraria não é um setor da economia local: é a economia local. Há um detalhe revelador, porém — o quartzito, principal item da pauta, ficou isento. Ou seja, a tarifa foi desenhada com bisturi, não com machado.
O mesmo padrão aparece na madeira. Metade das exportações brasileiras de molduras de madeira vai para os Estados Unidos, e não por acaso: elas são fabricadas nas dimensões da construção civil americana. Aqui mora o problema que o discurso da diversificação não resolve. Redirecionar uma commodity é achar outro comprador. Redirecionar uma moldura cortada no padrão americano é redesenhar o produto, refazer a certificação e reconstruir o canal — coisa de anos, não de trimestres. Vale para o calçado de couro do Vale dos Sinos, do Paranhana e de Franca, feito sob encomenda para aquele mercado. A Abicalçados já revisou a projeção de queda das exportações de 3,6% para 7,1% em 2026.
O setor moveleiro oferece o contraponto — e ele é honesto. Os Estados Unidos caíram de 28,3% das exportações brasileiras de móveis em 2024 para 16,5% entre janeiro e maio de 2026. No Rio Grande do Sul, despencaram do primeiro para o sexto destino, superados por Uruguai, Peru, Chile, México e Argentina. Adaptação é possível, portanto. Mas leiam o movimento pelo que ele é: não houve conquista de mercado, houve recuo administrado. A Abimóvel estima retração produtiva de 1,4% e até 10 mil postos perdidos — número que convém tratar com o ceticismo devido, já que vem de quem tem interesse em que ele seja grande. Ainda assim, a direção é inequívoca.
Agora inverta a lente, que é onde a análise fica interessante. Por que ferro-gusa, quartzito, café, carne e componentes aeronáuticos foram poupados? Não por deferência. Três quartos do ferro-gusa brasileiro são exportados, 80% deles para fundições americanas — que produzem apenas 6% do que consomem. Taxar isso seria taxar a própria indústria. A lista de isenções não é um gesto de boa vontade: é um inventário, produzido pelo próprio governo americano, dos pontos em que os Estados Unidos dependem do Brasil.
*Carlos Honorato é economista, PhD e mestre em Administração, especialista em estratégia, cenários econômicos e Scenario Planning. É CEO da OUTPOD e professor da FIA Business School e do Albert Einstein.
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