Existe um traço cultural que se repete com uma previsibilidade quase estatística: a gente fecha dezembro com o orçamento esticado, entra em janeiro com promessas de reorganização e, quando percebe, já está “autorizando” mais uma exceção porque ainda tem Carnaval. A folia passa, mas as parcelas ficam. E o lazer de curto prazo vira compromisso de longo prazo, com custo financeiro de pagamentos que escorregam para as linhas de crédito mais caras do sistema como cartão de crédito e cheque especial.
Os números recentes da CNC, Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo, ajudam a ancorar essa discussão. Na Peic, Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, de janeiro de 2026, 79,5% das famílias relataram ter dívidas a vencer, o maior patamar da série histórica, com inadimplência em 29,3% e 12,7% dizendo que não terão condições de pagar as dívidas em atraso. Isso é, na prática, quase 8 em cada 10 famílias endividadas, o que confirma que o nível permanece nesse patamar elevado.
No pré-pandemia, em fevereiro de 2019, a Peic indicava 61,5% de famílias com dívidas. Em fevereiro de 2020, 65,1%. A ordem de grandeza era seis em cada dez. Hoje, estamos consistentemente próximos de oito em cada dez.
Dívida, por si só, não é um problema. O problema é o custo do dinheiro e o descasamento de prazo. Crédito de curto prazo existe para cobrir falta temporária de liquidez e, por isso, carrega taxas mais altas, já que a instituição financeira precifica risco, conveniência e ausência de garantia. O erro está em utilizar esse crédito para financiar o cotidiano de forma recorrente.
Os créditos de curto prazo que se tornam vilões clássicos pelo uso inadequado são o cartão de crédito rotativo, o cheque especial e o crédito pessoal. Mesmo o crédito consignado, apesar de geralmente ter taxas menores do que o crédito pessoal sem garantia, deveria ser utilizado com cautela e planejamento, pois permite alongamentos que, na prática, mantêm o tomador por muito tempo pagando juros elevados quando comparados a estruturas de longo prazo com garantia.
Já o crédito de longo prazo tende a seguir outra lógica. Quando falamos de financiamento imobiliário, crédito direcionado ao investimento produtivo ou operações estruturadas com garantias, há previsibilidade de fluxo, colateral, menor volatilidade e melhor capacidade de precificação por parte das instituições financeiras.
O que tem acontecido historicamente é o uso do instrumento de curto prazo para sustentar despesa de longo prazo. A conta aparece primeiro no orçamento mensal. Depois, a renda passa a ser consumida pelo serviço da dívida. Por fim, surge a necessidade de mais crédito para tapar o buraco, realimentando o ciclo.
E, quando a Selic está em patamar elevado, ela encarece o custo de captação e aumenta o piso de juros da economia, apertando renegociações e alongamentos e tornando mais difícil sair do rotativo e migrar para linhas mais baratas. Em janeiro de 2026, por exemplo, o debate macro estava explicitamente colocado em torno de uma Selic alta e da expectativa de eventual queda mais à frente. Enquanto essa queda não vem, o custo financeiro permanece no bolso do consumidor.
Seria confortável culpar apenas o ambiente externo. Sim, existe facilidade de acesso ao crédito. Existe estímulo ao consumo por meio de uma política fiscal expansionista. Existe o efeito psicológico do Pix e dos pagamentos por aproximação, que reduzem a fricção e aumentam a sensação de gasto pequeno quando, na soma, ele é grande.
Mas tudo isso só vira endividamento persistente quando a pessoa opera com orçamento mental, onde qualquer parcela aparentemente cabe no bolso. Soma-se a isso a compensação pós-pandemia, em que parte do consumo funcionou como válvula de escape. Chamo isso de “inflação emocional” no orçamento doméstico, resultado de decisões por impulso, pouco ou nenhum planejamento e o curto prazo mandando no longo prazo.
Se o Carnaval é o símbolo de que o ano ainda não começou, então ainda dá tempo de se organizar e colocar em prática as resoluções financeiras de ano novo:
1.Atacar primeiro a dívida de curto prazo. Dívida de curto prazo não pode virar padrão de vida. Se entrou no rotativo, evite novas dívidas e reduza o principal, fazendo o parcelamento da fatura caso não consiga pagar o cartão integralmente. Já a manutenção de crédito de longo prazo só faz sentido quando existe ativo ou construção patrimonial clara, e mesmo assim com comprometimento de renda controlado.
2.Criar teto de gasto por objetivo no orçamento doméstico. Em vez de simplesmente falar em cortes, o que costuma ser racional na teoria e emocionalmente difícil na prática, trabalhe com limites e objetivos: gasto total de Carnaval, gasto diário, um limite de uso do cartão de crédito. O bom uso do cartão o torna eficiente, mas ele se torna perigoso quando vira dinheiro abstrato.
3.Criar uma reserva de liquidez. A função econômica da reserva é evitar que um imprevisto se transforme na porta de entrada dos juros de curto prazo. Sem reserva, qualquer oscilação de renda pode virar cheque especial, parcelamento e, no limite, rotativo.
O Carnaval passa em poucos dias. A pergunta é simples: você está financiando esses dias em quantos meses? O ponto não é demonizar a festa. É impedir que a fatura vire uma quarta-feira de cinzas que dura o ano inteiro.
*Coluna escrita por Carlos Castro, planejador financeiro, membro do Conselho de Administração da Planejar, CEO e sócio fundador da SuperRico, plataforma de saúde financeira.
As opiniões transmitidas pelo colunista são de responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a opinião da BM&C News.
Leia mais colunas do autor aqui.