A polarização política molda ideias e percepções em nosso país, qualquer que seja o tema discutido. Mas um dos efeitos mais curiosos deste fenômeno é ver as duas correntes contrárias se enxergando como oponentes ao sistema. Para os petistas, o candidato dos poderosos é Flávio Bolsonaro. Para os bolsonaristas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva é quem representa o sistema.
Ninguém sabe exatamente o que é o tal sistema – o que os americanos chamam de “powers to be” ou “establishment”. Mas seria uma ampla organização que envolve todas as engrenagens que mantêm o poder azeitado e na mão de poucos. Lula não pode dizer que é um candidato antissistema quando está em busca de seu quarto mandato. Já Flávio é apoiado pela elite econômica, o que poderia aproximá-lo daquilo que seria o sistema.
Talvez possamos dizer que aquele que possui maior trânsito com o poder explícito e implícito seja o candidato mais ligado a quem manda de fato no país. O poder econômico, assim, estaria ao lado do senador carioca. Por outro lado, onde está concentrada a maior autoridade neste país? O Supremo Tribunal Federal. Teoricamente, quem estiver mais próximo do STF é aquele seria o candidato do sistema. Neste caso, é possível dizer que Lula é aquele está mais mais próximo dos ministros do Supremo – até porque o PT indicou a maioria dos juízes que atuam na mais alta corte do país.
Mas mesmo o presidente não quer assumir essa proximidade. O Supremo é hoje alvo de grande reprovação pela sociedade brasileira e Lula quer distância deste vespeiro. Não é à toa, portanto, que o programa de governo do presidente para um eventual quarto mandato fale em reforma judicial.
“O fortalecimento dos órgãos de controle deve caminhar junto com a democratização e a reforma do Poder Judiciário, assegurando maior transparência, responsabilidade institucional e compromisso com a Constituição. É necessário superar práticas de exceção, enfrentar privilégios corporativos e construir um sistema de justiça que atue com equilíbrio, previsibilidade e respeito aos direitos, contribuindo para a estabilidade institucional, a segurança jurídica e a defesa do interesse público”, diz o programa petista.
Mesmo propondo mecanismos que possam frear o poder quase absoluto do STF, Lula é claramente mais próximo dos magistrados que o senador. O presidente só pôde concorrer por conta de decisões do Supremo, que anulou o processo que o deixava inelegível; já Flávio está concorrendo porque o STF decretou a prisão de seu pai, o que tirou o ex-presidente do páreo em 2026.
A relação entre cada candidato e o Supremo, porém, não encerra a discussão sobre quem seria visto como representante do sistema. A ideia de sistema costuma envolver uma combinação de fatores que ultrapassa a esfera jurídica e alcança setores como o mercado financeiro, a burocracia estatal, a elite administrativa e os grupos que influenciam decisões estratégicas de longo prazo. Esses elementos formam um conjunto difuso, difícil de identificar com precisão, mas que exerce influência constante sobre o ambiente político.
O debate sobre quem representa o sistema continuará enquanto houver desconfiança em relação às instituições e enquanto a política brasileira permanecer marcada por confrontos intensos. Os dois lados que compõem o campo dos polarizados já tomaram a sua decisão. Aqueles indecisos que estão no centro, no entanto, ainda estão julgando Lula e Flávio. O vencedor do segundo turno vai depender principalmente de qual será a decisão destes eleitores hesitantes.

