No primeiro ano de seu segundo mandato, o presidente Donald Trump não foi levado a sério por analistas internacionais e jornalistas. Curiosamente, telegrafou tudo o que iria fazer, mas muitos não acreditaram no que foi dito. Na campanha presidencial, já tinha avisado que iria começar uma guerra tarifária. No entanto, o assunto nunca foi discutido seriamente pela imprensa. Pois um de seus primeiros atos como presidente foi justamente elevar as taxas de importação de diversos produtos.
Com a invasão da Venezuela e a captura do ditador Nicolás Maduro, foi a mesma coisa. Primeiro, ele disse que iria combater o narcotráfico realizado a partir daquele país. Foi recebido com ceticismo até colocar vários navios da Marinha em águas venezuelanas e afundar embarcações supostamente ligadas ao crime organizado. Depois, em uma ação arrojada e cirúrgica, atacou Caracas e capturou Maduro, levando-o para julgamento em Nova York.
O presidente americano alertou várias vezes que iria proceder dessa forma. Uma delas foi em 25 de novembro, durante um briefing por uma coletiva feita por uma videochamada transmitida a partir de seu resort em Mar-a-Lago (Palm Beach, Florida).
“A intervenção militar terrestre na Venezuela começa em breve – mais fácil por terra do que por mar”, disse ele na ocasião.
Então, por que o assombro quando houve, de fato, a invasão?
A imprensa, de maneira geral, tenta desqualificar o presidente americano em praticamente todos os assuntos que a Casa Branca levanta. E sempre parte do princípio de que ele está invariavelmente criando factoides inexequíveis ou partindo para uma narrativa fantasiosa.
Certo ou errado, porém, Trump opera de acordo com uma lógica particular. E cabe aos jornalistas entenderem como funciona seu raciocínio e decifrá-lo para o público. O problema é que, até agora, a maioria dos profissionais de imprensa tentou somente desqualificar a Casa Branca.
Essa postura tem um efeito colateral perigoso. Ao subestimar sistematicamente cada declaração do presidente, parte da imprensa acaba contribuindo para um ambiente em que fatos e alertas concretos se misturam a ruídos e exageros. Quando tudo é tratado como bravata, nada é levado a sério, nem mesmo aquilo que deveria mobilizar debates profundos, análises estratégicas e preparação institucional.
Além disso, ignorar o padrão de comportamento do presidente impede que a sociedade compreenda a coerência interna de suas ações. Trump, goste-se ou não, combina comunicação direta, imprevisibilidade calculada e uma disposição incomum para romper protocolos diplomáticos. Ao não reconhecer essa lógica, analistas e jornalistas deixam de oferecer ao público o que deveriam: contexto, interpretação e antecipação de cenários.
Outro ponto relevante é que a insistência em tratar cada movimento da Casa Branca como absurdo ou impossível acaba desgastando a credibilidade da própria imprensa. Quando previsões céticas se mostram equivocadas, como no caso da guerra tarifária ou da intervenção na Venezuela, o público passa a desconfiar não apenas das análises específicas, mas do jornalismo como um todo. Esse desgaste abre espaço para narrativas paralelas, teorias conspiratórias e discursos que se alimentam justamente da desconfiança institucional.
Levar Trump a sério não significa concordar com ele, nem endossar suas decisões. Significa reconhecer que suas palavras têm consequências concretas e que sua forma de governar exige atenção redobrada. Neste contexto, é preciso analisar seus movimentos com rigor, em vez de descartá-los por reflexo. E compreender que subestimar um presidente, qualquer presidente, é um erro estratégico que pode custar caro.
Se a imprensa deseja cumprir seu papel democrático precisa abandonar a postura reativa e adotar uma abordagem mais analítica, menos emocional e mais atenta aos sinais emitidos pelo epicentro do poder americano. Trump não esconde seus planos. Ele os anuncia repetidamente. O desafio é ouvi-los com seriedade antes que se tornem realidade.
*As opiniões transmitidas pelo colunista são de responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a opinião da BM&C News.












