Mesmo com as bolsas globais renovando máximas históricas, o ambiente para os investidores nunca foi tão complexo e contraditório. A avaliação é de Reinaldo Le Grazie, gestor da Panamby Capital, que aponta um cenário marcado pela coexistência de ativos de risco e de proteção em patamares elevados, um sinal claro de que o mercado opera sob forte tensão.
“É um paradoxo. As bolsas estão nas máximas, a curva de juros também está elevada e os ativos de proteção, como o ouro, igualmente nas máximas”, afirmou o gestor em entrevista à BM&C News.
Segundo Le Grazie, o investidor vive hoje em um ambiente de risk on aparente, impulsionado principalmente pela tecnologia e pela busca por proteção contra a inflação, ao mesmo tempo em que se blinda contra riscos geopolíticos e institucionais comprando ativos defensivos.
Geopolítica como principal vetor de risco para as bolsas
Para o gestor, o mundo entrou em um ciclo estrutural de maior instabilidade desde a pandemia.
“Desde a Covid, o mercado tem sido muito volátil e tenso. O ambiente geopolítico piorou muito. Já são três anos de guerra na Europa e esse cenário está se expandindo para o mundo inteiro”, destacou.
O aumento dos gastos militares e a valorização de ações ligadas ao setor de defesa reforçam, na visão de Le Grazie, que o risco geopolítico deixou de ser pontual e passou a ser um elemento permanente de precificação dos mercados.
Ouro em alta estrutural
Um dos sinais mais claros desse movimento é o desempenho do ouro. O metal precioso acumulou uma valorização próxima de 70% a 80% no último ano, operando nas máximas históricas ao lado da prata e de outros ativos de proteção.
Para o gestor da Panamby, essa alta não é apenas especulativa. Ela reflete uma mudança estrutural no comportamento dos grandes investidores institucionais, especialmente após a decisão do Banco Central Europeu de congelar reservas do Banco Central da Rússia em 2022.
“Depois disso, muitos países e fundos soberanos passaram a pensar: não posso ter meu dinheiro espalhado por aí, sujeito a bloqueios. O ouro virou o ativo preferido de bancos centrais e fundos soberanos”, explicou.
Segundo ele, quem compra ouro nesse contexto não é um investidor tático, mas sim atores de longo prazo que montam posições estruturais e não têm perfil vendedor, o que sustenta o preço elevado por períodos prolongados.
Bolsas nas máximas, mas sem conforto
Apesar do bom desempenho das bolsas, Le Grazie faz um alerta: a alta dos mercados acionários não significa redução de risco. Pelo contrário. O fato de o capital estar simultaneamente migrando para ações e ativos defensivos mostra que o investidor está sem convicção plena no cenário global.
“Você tem bolsas nas máximas, espalhando para o mundo inteiro, e ao mesmo tempo ouro, juros e ativos de proteção também nas máximas. Isso revela um mercado fragilizado, que compra risco e proteção ao mesmo tempo”, afirmou.
Na prática, isso significa que qualquer evento inesperado, seja uma escalada geopolítica, uma crise fiscal, um choque institucional ou uma mudança brusca na política monetária, pode funcionar como gatilho para correções relevantes nos mercados.
Um novo regime de mercado
Para o gestor, o investidor precisa entender que o mundo entrou em um novo regime estrutural, com mais volatilidade, mais conflitos, mais intervenção política e menos previsibilidade macroeconômica.
“O ambiente hoje é de tensão permanente. Não é mais um ciclo normal de mercado. É um cenário em que o risco é estrutural, não episódico”, conclui Le Grazie.
Nesse contexto, a mensagem é clara: mesmo com as bolsas em recorde, o momento exige mais cautela, diversificação e atenção aos riscos que não aparecem diretamente nos gráficos, mas que estão cada vez mais presentes no pano de fundo global.













