O dólar, principal moeda de reserva do sistema financeiro internacional, pode entrar em um novo regime de instabilidade caso o Federal Reserve (Fed) perca sua característica técnica e se torne cada vez mais sensível a pressões políticas. A avaliação é do economista VanDyck Silveira, em entrevista à BM&C News, ao comentar o cenário de transição na presidência do banco central americano e a possibilidade de maior tolerância à inflação nos Estados Unidos.
Para VanDyck, a questão central não é apenas a trajetória de juros, mas a própria credibilidade institucional do Fed.
“O mundo não pode viver com um Fed que oscila. A gente não pode viver com um Fed que é capturado por interesses políticos”, afirmou.
Segundo ele, o risco é que o banco central americano deixe de atuar como uma instituição tecnocrática, focada exclusivamente em estabilidade de preços e emprego, e passe a operar sob incentivos de curto prazo, mais alinhados à dinâmica dos mercados financeiros e ao ciclo político.
Economistas versus financistas no comando do Fed
VanDyck explicou que analisou historicamente o perfil dos presidentes do Federal Reserve e identificou dois grupos distintos: economistas de carreira acadêmica e operadores vindos do mercado financeiro.
“Eu analisei desde o início do Federal Reserve dois tipos de operadores como chairman: economistas de fato e operadores de mercado”, disse.
Na visão dele, essa diferença de formação altera diretamente o comportamento da política monetária. Enquanto economistas tendem a priorizar o médio e longo prazo, financistas operam sob lógica de arbitragem e curto prazo.
“O economista vê, analisa o médio e o longo prazo. O financista opera arbitragem, encontra ativos com preços diferentes e opera no curto e no curtíssimo prazo. Isso gera incentivos distintos. Os não economistas tendem a acomodar taxas de inflação muito mais altas e manter taxas de juros mais baixas”, explicou.
Pressão política, inflação e monetização da dívida
O economista afirmou que o contexto atual dos Estados Unidos, com dívida pública acima de 120% do PIB e forte pressão política por crescimento, cria um ambiente propício para maior tolerância inflacionária.
“A expectativa é uma acomodação maior, principalmente na questão de monetização da dívida”, disse.
Ele explicou que inflação mais alta funciona, na prática, como um mecanismo de redução do peso real da dívida pública.
“Essa taxa de inflação corrói a dívida que um país tem, porque a dívida é emitida em juros nominais”.
Nesse cenário, VanDyck projeta que a inflação americana dificilmente voltará aos níveis anteriores.
“Eu imagino que a gente vai viver com uma inflação nos Estados Unidos entre 4% e 4,5%… a gente não vai baixar de onde a gente está hoje”.
Impacto para o dólar e para os mercados globais
Para o dólar, o risco maior não é apenas a inflação, mas a perda de previsibilidade institucional do Fed. Como a moeda americana ancora praticamente todo o sistema financeiro global, qualquer sinal de fragilidade técnica tende a se refletir em volatilidade.
“A volatilidade, certamente”, afirmou VanDyck ao ser questionado sobre os efeitos para juros longos, dólar e ativos de risco.
Segundo ele, um Fed menos técnico e mais politizado tende a estimular exatamente o ambiente que beneficia traders e operadores de curto prazo.
“A volatilidade é o que o trader busca. A gente ganha dinheiro no mercado financeiro não com estabilidade, a gente busca instabilidade”.
Na prática, isso pode significar mercados mais sujeitos a oscilações bruscas, reprecificação constante de ativos e maior sensibilidade do dólar a ruídos políticos.
Risco social e perda de poder de compra
Além dos efeitos financeiros, VanDyck chamou atenção para o impacto social de uma inflação estruturalmente mais alta.
“Essa inflação é insidiosa, ela corrói o poder aquisitivo principalmente do assalariado e de quem ganha pouco”, afirmou.
Ele citou que os Estados Unidos já enfrentam uma crise de custo de vida, especialmente no setor de alimentos.
“O presidente Trump está enfrentando a crise do affordability por causa dessa inflação persistente, principalmente nos gêneros alimentícios”.
Segundo o economista, a consequência é uma ampliação da desigualdade e maior dificuldade para a classe média acessar bens básicos como moradia e transporte.
Um novo regime para o dólar?
Para VanDyck, o ponto central é que o dólar depende menos do nível exato dos juros e mais da confiança na governança monetária americana.
Quando o Fed atua como “tecnocracia pura”, focada apenas em inflação e desemprego, a moeda mantém sua credibilidade global. Mas quando passa a ser influenciado por interesses políticos, a lógica muda.
“Quando o Fed deixa de ser um think tank aplicado e passa a ser capturado por interesses políticos e pessoais, essa acomodação monetária passa a contar e contar muito”, concluiu.
Na leitura do economista, esse movimento não significa o colapso imediato do dólar, mas abre espaço para um novo regime de maior instabilidade, inflação estruturalmente mais alta e volatilidade permanente nos mercados globais.













