O Brasil corre o risco de perder espaço no novo ciclo global de crescimento, marcado por mudanças estruturais na economia internacional, reconfiguração do fluxo de capitais e maior seletividade dos investidores. A avaliação é de Alexandre Espírito Santo, economista-chefe da Way Investimentos, em entrevista à BM&C News.
Segundo o economista, a revisão do Fundo Monetário Internacional (FMI), que reduziu a projeção de crescimento do Brasil para 1,6% em 2026, contrasta com o desempenho esperado de outras economias emergentes, como a China, que manteve previsão de crescimento em torno de 5%, mesmo diante de tensões comerciais e tarifas.
“É difícil ver o país crescendo de forma consistente ou em uma velocidade satisfatória enquanto os grandes problemas estruturais não forem enfrentados”, afirmou.
Novo ciclo global no radar: Brasil enfrenta juros altos e atividade pressionada
Um dos principais entraves ao crescimento brasileiro, segundo Espírito Santo, é a política monetária ainda restritiva. Apesar da inflação mostrar sinais de convergência para a meta, o nível de juros segue elevado e impõe custos relevantes à atividade econômica.
Na avaliação do economista, o Banco Central tende a iniciar o ciclo de cortes apenas de forma gradual, o que mantém o crescimento comprimido no curto prazo.
“A atividade sofre com um juro extremamente alto. Mesmo com a inflação convergindo, o processo de normalização monetária deve ser lento”, explicou.
Ano eleitoral e risco fiscal no radar
Além do ambiente monetário adverso, o cenário fiscal continua sendo um fator central de preocupação. Espírito Santo destacou que o Brasil convive há anos com uma crise fiscal não resolvida, marcada por medidas paliativas em vez de soluções estruturais.
Em ano eleitoral, a tendência de expansão de gastos eleva a percepção de risco e dificulta a ancoragem das expectativas inflacionárias, exigindo uma postura mais dura do Banco Central.
“São feitos curativos, mas a ferida continua aberta. Isso faz com que a inflação resista e obrigue o Banco Central a agir”, avaliou.
Fluxo estrangeiro e seletividade global
Apesar do desempenho positivo recente da Bolsa brasileira, impulsionado pelo fluxo estrangeiro no fim de 2025, o economista alerta que esse movimento está mais relacionado a fatores globais do que a fundamentos domésticos.
A queda dos juros nos Estados Unidos e a realocação de portfólios favoreceram os mercados emergentes como um todo. No entanto, Espírito Santo ressalta que o investidor global tende a separar países que fizeram o “dever de casa” daqueles que permanecem vulneráveis.
“O Brasil tem surfado essa onda, mas o investidor olha para risco. E risco exige prêmio”, disse.
Um mundo em transição para o novo ciclo global
O economista também chamou atenção para o cenário global atípico, marcado por ativos em máximas históricas simultaneamente, de ouro e commodities a ações e criptomoedas, em um ambiente de endividamento elevado.
Para ele, esse movimento desafia teorias econômicas tradicionais e reflete um período de transição, com o enfraquecimento do multilateralismo e mudanças na ordem global.
“Estamos saindo de uma era e entrando em outra. O mundo está mais instável e mais seletivo”, afirmou.
Oportunidades existem, mas exigem cautela
Apesar do tom crítico, Espírito Santo reconhece que ainda há oportunidades no mercado brasileiro, inclusive na Bolsa, com empresas negociadas a preços atrativos. No entanto, reforça que o investidor não pode ignorar o lado real da economia.
“Há ações descontadas, sim. Mas não dá para desprezar a desaceleração econômica e uma crise fiscal que ganha corpo a cada ano”, concluiu.
Para o economista, enquanto o Brasil não enfrentar de forma definitiva seus desequilíbrios fiscais e institucionais, o país tende a permanecer como um mercado secundário no novo ciclo global, beneficiando-se apenas de movimentos conjunturais, e não de uma trajetória sustentável de crescimento.













