Os moradores de Bilbau não chamam seu aeroporto pelo nome oficial. Eles o chamam de La Paloma, a pomba, porque o terminal projetado por Santiago Calatrava e inaugurado em 2000 tem a silhueta de uma ave prestes a levantar voo. O aeroporto Bilbau Calatrava La Paloma virou referência da arquitetura paramétrica e peça central na transformação urbana do País Basco.
Como surgiu a ideia de um terminal com forma de pássaro?
Santiago Calatrava nasceu em Valência, Espanha, em 1951, e formou-se tanto em arquitetura quanto em engenharia civil, combinação rara que define seu estilo. Seus projetos são reconhecidos por formas orgânicas extraídas da natureza, esqueletos humanos, plantas, asas e corpos em movimento traduzidos em concreto, aço e vidro. Para o terminal de Bilbau, a inspiração foi direta: uma pomba com as asas abertas no momento exato do voo.
A escolha não foi apenas estética. Um aeroporto é o primeiro e o último ponto de contato de um visitante com uma cidade. Calatrava projetou um edifício que comunica movimento, leveza e partida antes mesmo de o passageiro embarcar. A forma do pássaro não decora o terminal: ela é o terminal.

Quais são os detalhes estruturais que tornam o La Paloma tecnicamente ousado?
O terminal funciona como um único volume coberto por uma cobertura curvada que imita as asas abertas de uma ave. A estrutura é composta por pórticos de aço que formam o perfil arqueado da cobertura, com fechamento em vidro nas laterais para garantir iluminação natural abundante no interior. O resultado é um espaço interno sem a sensação de confinamento típica de terminais aeroportuários convencionais.
Veja os principais dados técnicos e operacionais do terminal:
- Inauguração: ano 2000, no município de Loiu, a 12 km do centro de Bilbau
- Arquiteto: Santiago Calatrava, também responsável pela ponte Zubizuri na mesma cidade
- Capacidade projetada: mais de 5 milhões de passageiros por ano
- Tráfego real em 2024: 6,8 milhões de passageiros, superando a capacidade original
- Operação: terminal único, com voos domésticos e internacionais, principalmente dentro da Europa
- Apelido popular: La Paloma (A Pomba), dado pelos habitantes locais pela silhueta da estrutura
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O La Paloma foi uma obra sem polêmica?
Não. Calatrava é um arquiteto que coleciona admiradores e críticos com intensidade semelhante. O terminal de Bilbau enfrentou um problema prático sério: a zona de espera de passageiros ficou originalmente descoberta, exposta às chuvas frequentes do País Basco. Apenas sete anos após a inauguração, o aeroporto precisou de obras de fundo para fechar essa área, com custo adicional de cerca de 3 milhões de euros, e o próprio Calatrava foi chamado para projetar a reforma.
Em 2011, a nova área de chegadas, fechada e climatizada, com 3.200 m² e estrutura envidraçada com pórticos de aço, foi inaugurada. A reforma melhorou o conforto operacional sem alterar a linguagem formal original do projeto. O apelido La Paloma sobreviveu a todas as críticas e permanece em uso até hoje.

Qual é o papel do aeroporto na transformação urbana de Bilbau?
A cidade do País Basco é um dos casos mais estudados de regeneração urbana via arquitetura. O Aeroporto de Bilbau integra um conjunto de obras assinadas por arquitetos internacionais que transformaram uma cidade industrial em declínio num destino cultural de referência global entre os anos 1990 e 2000. O Museu Guggenheim, de Frank Gehry, é o símbolo mais conhecido desse movimento, mas o metro de Norman Foster, a ponte Zubizuri de Calatrava e o próprio terminal fazem parte da mesma estratégia urbana.
Cada obra foi encomendada a um arquiteto de reputação internacional com um objetivo explícito: transformar a identidade visual da cidade e atrair turismo, investimento e cobertura global. O terminal é o ponto de entrada desse percurso: quem chega a Bilbau já desembarca dentro de uma declaração arquitetônica.
A forma de pássaro é recorrente na obra de Santiago Calatrava?
Sim, e com variações que vão além da metáfora visual. Calatrava projetou estruturas cinéticas inspiradas em asas, como o Milwaukee Art Museum nos Estados Unidos, cujo telhado abre e fecha mecanicamente conforme a posição do sol. Também é responsável pelo Museu do Amanhã no Rio de Janeiro, cuja silhueta remete a um pássaro em repouso sobre a Baía de Guanabara, e pela Oculus Station em Manhattan, inspirada em uma pomba sendo solta por uma criança, construída no local das antigas Torres Gêmeas.
A recorrência do pássaro na obra de Calatrava não é nostalgia nem repetição. É uma linguagem formal consistente que conecta engenharia estrutural à ideia de leveza e movimento, dois conceitos que uma estrutura de aço e concreto só consegue transmitir quando a forma é pensada com essa intenção desde o início do projeto.
O que o La Paloma diz sobre arquitetura como identidade urbana?
Um edifício recebe apelido popular quando a forma comunica algo que as pessoas reconhecem sem precisar de explicação. La Paloma não precisa de placa nem de guia turístico: a silhueta fala por si. Esse é o critério mais honesto para avaliar se um projeto de arquitetura ousada cumpriu seu propósito, a forma tornou-se memória coletiva.
Em 2024, o terminal processou 6,8 milhões de passageiros, número que supera a capacidade original projetada em mais de 35%. O aeroporto cresceu além do que Calatrava havia previsto, mas o apelido permanece o mesmo. La Paloma segue voando, mesmo parada no solo.

