O Federal Reserve divulga nesta quarta-feira a decisão sobre a taxa básica de juros dos Estados Unidos, em mais uma reunião do FOMC. Após a divulgação, o presidente da instituição, Jerome Powell, concede entrevista coletiva, que deve ser o principal foco de atenção dos mercados globais.
A reunião inaugura o calendário de política monetária de 2026 e ocorre em um contexto de desaceleração gradual da inflação, mercado de trabalho ainda resiliente e atividade econômica acima do potencial, combinação que mantém o Fed em posição de cautela.
Segundo Andressa Durão, economista do ASA, apesar da melhora recente nos indicadores, o balanço de riscos ainda não permite uma flexibilização da política monetária.
“Os riscos inflacionários seguem se sobrepondo aos riscos para o emprego, e o balanço de riscos ainda não oferece conforto suficiente para uma normalização da política monetária”, afirma.
A economista destaca que, embora as perspectivas para inflação e desemprego estejam melhores do que o esperado, o crescimento econômico segue mais sólido, o que reduz a urgência de cortes de juros.
Decisão do Fed no radar: fiscal e riscos geopolíticos são destaques
Em sua avaliação, fatores como um ambiente fiscal potencialmente mais expansionista ao longo do ano, além dos riscos geopolíticos no radar, tendem a atuar contra o processo de desinflação. Outro ponto de atenção é a inflação de serviços, que permanece acima da meta do Fed.
“A possibilidade de um ambiente fiscal mais expansionista neste ano e os riscos geopolíticos se somam a uma inflação de serviços ainda acima da meta. Esses fatores justificam a manutenção de uma postura cautelosa por parte do Comitê”, diz Durão.
Para o ASA, a expectativa é de manutenção da taxa de juros e de um discurso que preserve a estratégia de prudência ao longo de 2026.
“Esperamos que o Fed preserve o tom de cautela e mantenha a taxa de juros estável ao longo do ano”, conclui.
Trump, Powell e o risco institucional
Além dos dados econômicos, o ambiente político também entrou no radar dos investidores. O anúncio recente de que Donald Trump não pretende demitir Jerome Powell da presidência do Federal Reserve, mesmo em meio a investigações, foi interpretado como um sinal de redução do risco institucional no curto prazo.
Segundo Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, a sinalização tende a trazer maior previsibilidade para a condução da política monetária americana e, por consequência, para os mercados globais.
“O fato de Trump não pretender demitir Jerome Powell reduz a percepção de um choque institucional imediato e estabiliza as expectativas de que o Federal Reserve continuará a calibrar sua estratégia de juros de forma técnica e gradual”, afirma.
Na avaliação do analista, esse movimento é visto com alívio por investidores, especialmente em mercados emergentes, que são mais sensíveis a mudanças abruptas na política monetária americana.
“Isso tende a trazer maior previsibilidade sobre juros globais e o fluxo de capital para mercados emergentes como o Brasil”, diz Lima.
Decisão do Fed: crédito e câmbio reagem antes das ações
Apesar do alívio institucional, o cenário segue marcado por incertezas geopolíticas, que podem se traduzir em maior volatilidade financeira.
Segundo Sidney Lima, em episódios de estresse global, os primeiros canais de transmissão do risco costumam ser o crédito e o câmbio, antes de afetar de forma mais direta os mercados de ações.
“Riscos geopolíticos maiores tendem a se refletir primeiro no crédito e no câmbio, já que investidores procuram refúgios seguros, o que pode elevar o custo do crédito para emissores emergentes e pressionar moedas locais frente ao dólar”, explica.
Somente em um segundo momento, segundo o analista, os efeitos costumam chegar ao mercado acionário.
“As ações normalmente reagem com um atraso maior às notícias de risco externo”, afirma.
O que o mercado espera da coletiva de Powell
Mais do que a decisão em si, que deve confirmar a manutenção dos juros, o foco dos investidores estará no tom da comunicação de Jerome Powell, especialmente sobre:
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A avaliação do Fed sobre a inflação de serviços
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A leitura sobre o mercado de trabalho
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Os riscos fiscais nos Estados Unidos
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A influência do cenário geopolítico sobre a política monetária
A sinalização do presidente do Fed deve orientar as expectativas sobre o início, ou não, de um ciclo de flexibilização monetária ao longo de 2026, com impactos diretos sobre juros globais, dólar, fluxo de capitais e ativos de risco.













