A ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central do Brasil, divulgada hoje, terça-feira (3), detalhou os fundamentos que levaram à decisão de manter a taxa Selic em 15,00% ao ano e trouxe sinais mais claros de como a autoridade monetária enxerga o início do próximo ciclo de flexibilização.
Embora reconheça avanços consistentes no processo de desinflação, o Banco Central deixa claro que o ambiente macroeconômico ainda exige postura contracionista por período prolongado, sobretudo diante da desancoragem das expectativas, da resiliência do mercado de trabalho e dos riscos fiscais estruturais.
Principais pontos da ata do Copom
Na avaliação do Copom, o ambiente internacional permanece marcado por elevada incerteza, em função da conjuntura e da política econômica dos Estados Unidos, com reflexos diretos sobre as condições financeiras globais. A ata reconhece algum arrefecimento recente da incerteza, com commodities mais comportadas e condições financeiras ainda favoráveis, mas reforça que o cenário segue exigindo cautela, especialmente para economias emergentes.
O Comitê também ressalta que tensões geopolíticas continuam sendo monitoradas, ainda que, até o momento, seus efeitos sobre preços globais tenham sido limitados.
Atividade desacelera, mas trabalho segue pressionando
No front doméstico, a ata confirma a leitura de moderação gradual da atividade econômica, em linha com o que já vinha sendo antecipado nas comunicações anteriores. Setores mais sensíveis ao crédito e às condições financeiras mostram desaceleração mais intensa, enquanto segmentos ligados à renda seguem mais resilientes.
O principal ponto de atenção permanece sendo o mercado de trabalho. Segundo o Copom, a taxa de desemprego segue em níveis historicamente baixos, ao mesmo tempo em que os rendimentos reais continuam crescendo acima da produtividade. Esse descompasso é interpretado como um canal relevante de pressão inflacionária, sobretudo no setor de serviços.
A autoridade monetária afirma que segue aprofundando a análise sobre a natureza estrutural e cíclica do mercado de trabalho, justamente para entender como a dinâmica de salários pode se traduzir em preços ao longo do tempo.
Inflação melhora, mas expectativas continuam desancoradas
A ata reconhece que as leituras recentes da inflação mostram arrefecimento tanto no índice cheio quanto nas medidas subjacentes. O Copom destaca que a combinação de câmbio mais apreciado e comportamento mais benigno das commodities tem contribuído para a desaceleração dos preços de bens industrializados e alimentos.
A inflação de serviços, por sua vez, também apresentou alguma moderação, mas segue mais resistente, refletindo a força do mercado de trabalho e a dinâmica da demanda interna.
Apesar da melhora dos indicadores correntes, o Comitê enfatiza que as expectativas de inflação seguem acima da meta em todos os horizontes relevantes. Na pesquisa Focus, as projeções apontam inflação de 4,0% em 2026 e 3,8% em 2027, níveis considerados incompatíveis com uma convergência confortável à meta.
Segundo a ata, em um ambiente de expectativas desancoradas, o custo da desinflação é maior, exigindo uma política monetária mais restritiva e por mais tempo do que seria necessário em um cenário de maior credibilidade.
Fiscal volta ao centro da análise da ata do Copom
Um dos trechos mais contundentes da ata diz respeito à política fiscal. O Copom reforça que, além do impacto de curto prazo via estímulo à demanda, o arcabouço fiscal influencia diretamente a percepção de sustentabilidade da dívida e o prêmio de risco da economia.
O Comitê alerta que o enfraquecimento do esforço de reformas estruturais, a expansão do crédito direcionado e as incertezas sobre a estabilização da dívida pública têm potencial de elevar a taxa de juros neutra, reduzindo a eficácia da política monetária e aumentando o custo da desinflação.
Nesse contexto, o Banco Central volta a defender a necessidade de políticas previsíveis, críveis e anticíclicas, com coordenação entre política fiscal e monetária.
Projeções seguem próximas da meta
No cenário de referência detalhado na ata, o Banco Central projeta inflação acumulada em quatro trimestres de 3,4% em 2026 e 3,2% no terceiro trimestre de 2027, horizonte relevante para a política monetária.
As projeções consideram taxa de câmbio inicial de R$ 5,35 por dólar, trajetória de juros extraída da pesquisa Focus, petróleo seguindo a curva futura e hipótese de bandeira tarifária amarela no fim de 2026.
Corte é possível, mas ciclo será lento
O ponto mais relevante da ata é a confirmação de que o Copom considera adequado sinalizar o início de um ciclo de redução da taxa de juros na próxima reunião, desde que o cenário esperado se confirme.
Ao mesmo tempo, o Comitê reforça que os juros deverão permanecer em níveis restritivos por período prolongado, até que se consolide não apenas a desinflação corrente, mas também a reancoragem das expectativas.
A ata do Copom de janeiro deixa claro que a magnitude e a duração do ciclo de cortes ainda não estão definidas e dependerão da incorporação de novas informações sobre inflação, atividade, mercado de trabalho e política fiscal.
Leitura do mercado
Na avaliação de Leonardo Costa, economista do ASA, o cenário base segue sendo de um primeiro corte de 25 pontos-base na reunião de março, ainda que exista risco de um movimento mais intenso, de 50 pontos-base. Segundo o economista, o Banco Central adota uma postura mais cautelosa ao seguir destacando, na ata, principalmente a resiliência do mercado de trabalho e as expectativas de inflação ainda distantes da meta.
Por outro lado, segue a favor da autoridade monetária o arrefecimento da inflação, tanto no índice cheio quanto nas medidas subjacentes, além da redução das incertezas de curto prazo no balanço de riscos.
“Reforçamos nossa projeção de corte de 25 bps na reunião de março, com taxa Selic terminal em 12,5% ao longo de 2026”, afirma Costa.
Poucas mudanças em relação ao comunicado
“O próprio BC destaca que o ritmo dependerá da evolução das informações, em um ambiente de sinais mistos sobre a desaceleração da atividade e seus efeitos sobre os preços, o que dificulta a identificação de tendências claras”, afirma Sanchez.












