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Acima de 3.000 metros, beija-flores do Chimborazo abandonam disputas territoriais e formam colônias em ambiente extremo

Laila Por Laila
14/05/2026
Em Ciências Naturais

Ver beija-flores dividindo espaço já seria incomum, mas encontrá-los fazendo ninhos juntos no frio dos Andes muda a escala da descoberta. No vulcão Chimborazo, acima de 3.000 metros de altitude, aves conhecidas pela agressividade passaram a formar colônias e até voar coordenadamente ao amanhecer.

Onde os beija-flores foram encontrados ninificando em grupo?

A espécie estudada foi o Chimborazo Hillstar (Oreotrochilus chimborazo), um beija-flor endêmico do alto dos Andes equatorianos que vive acima de 3.000 metros de altitude, acima da linha das árvores, num dos ambientes mais inóspitos do continente. A pesquisa foi conduzida por Cañas-Valle em parceria com o biólogo evolutivo Dr. Juan Bouzat, da Bowling Green State University (BGSU), nos EUA.

O trabalho foi publicado na revista Ornithology em março de 2025. O que Cañas-Valle observou foi que esses beija-flores não estavam brigando por território de ninhos, mas dividindo o mesmo espaço e construindo ninhos próximos uns dos outros recorrentemente ao longo dos anos.

Beija-flor-do-Chimborazo pousa entre flores do páramo gelado dos Andes

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Por que a hipótese de falta de espaço foi descartada pelos pesquisadores?

A primeira explicação intuitiva foi simples: talvez não houvesse espaço suficiente e os pássaros estivessem se aglomerando por falta de opção. Para testar essa hipótese, a equipe mapeou toda a paisagem ao redor das colônias em busca de locais alternativos adequados para ninificação solitária, como bueiros, saliências rochosas protegidas e estruturas humanas.

Segundo o Phys.org, havia locais disponíveis que nunca foram usados. “Se nossa hipótese de que os beija-flores se juntam por falta de espaço estivesse certa, todo local disponível deveria ser utilizado. Mas isso não aconteceu”, explicou Cañas-Valle.

O que explica o comportamento coletivo dos beija-flores no Chimborazo?

Os Andes acima de 3.000 metros são um ambiente de estresse térmico intenso: noites frias, ventos fortes e pouca cobertura vegetal. Nesse cenário, a cooperação pode valer mais do que a competição.

Segundo o Earth.com, observações preliminares sugerem que as colônias apresentam traços sociais adaptativos consistentes:

  • Cerca de 80% dos pássaros voaram na mesma direção ao sair dos ninhos pela manhã, num comportamento coordenado que lembra mais um bando migratório do que indivíduos territoriais independentes
  • Ninhos construídos próximos uns dos outros recorrentemente ao longo dos anos, sugerindo fidelidade ao local coletivo e não apenas ao espaço individual
  • Ausência de disputas territoriais nos sítios de ninificação, comportamento inédito para uma espécie reconhecida pela agressividade entre indivíduos da mesma espécie
Grupo de beija-flores sai dos ninhos na mesma direção ao amanhecer

Como o ambiente extremo pode forçar beija-flores a abandonar estratégias evolutivas consolidadas?

O canal BlaBlaLogia, com mais de 309 mil inscritos, explora como pressões ambientais estão promovendo a evolução em tempo real em populações de beija-flores, alterando inclusive a dimensão dos bicos por diferentes pressões seletivas:

Para o Dr. Bouzat, a descoberta abre uma janela para entender como pressões ambientais extremas podem forçar espécies a adotar comportamentos completamente novos. “Estas são aves que vivem nos Andes acima de 3.000 metros, num ambiente muito, muito hostil acima da linha das árvores”, disse o pesquisador.

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O que essa descoberta muda no entendimento científico sobre beija-flores?

A ninificação coletiva do Chimborazo Hillstar não é apenas uma curiosidade comportamental. É uma evidência de que estratégias evolutivas consideradas fixas podem ser reconfiguradas quando o ambiente impõe pressão suficiente.

A tabela abaixo contrasta o comportamento típico da espécie com o que foi observado nas encostas do Chimborazo:

Comportamento típico dos beija-flores Comportamento observado no Chimborazo
Territorialismo agressivo em ninhos Ninificação coletiva sem disputas
Ninhos isolados e distantes entre si Ninhos construídos próximos, recorrentemente
Voo independente e sem coordenação 80% dos indivíduos voam na mesma direção ao amanhecer
Competição pelo espaço disponível Locais alternativos disponíveis ignorados voluntariamente

O frio que une o que a evolução separou

O Chimborazo Hillstar vive em um dos poucos ambientes do planeta severos o suficiente para dobrar o instinto territorial de um beija-flor. O que Cañas-Valle encontrou nas encostas geladas do vulcão não é uma exceção curiosa, mas um experimento natural em andamento: a demonstração de que cooperação e competição não são opostos fixos, mas respostas ajustáveis a condições que mudam.

A ciência sabia que beija-flores brigam. O que ela ainda estava aprendendo é que, a mais de 3.000 metros de altitude, o custo de brigar pode ser alto demais para sobreviver.

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