A proximidade do primeiro turno das eleições de 2026 começa a alterar a percepção dos investidores sobre o Brasil. Com candidaturas, alianças partidárias e estratégias políticas entrando em uma fase mais definida, o mercado financeiro passa a monitorar com maior atenção os possíveis impactos do cenário eleitoral sobre a economia, especialmente em relação à política fiscal, aos juros e ao ambiente de investimentos.
Apesar do avanço do calendário eleitoral, ainda existem incertezas sobre a formação das chapas e os acordos entre partidos. Segundo Miguel Daoud e Marco Saravalle, os investidores observam esse processo principalmente por meio dos ativos financeiros, que refletem as expectativas sobre os rumos da economia brasileira.
“Mas o fato é que, a partir de agora, as definições começam a passar pelo funil, em que várias decisões vão sair daí”, afirmou Miguel Daoud.
Mercado precifica eleições 2026 pela curva de juros
A curva de juros tornou-se um dos principais indicadores acompanhados pelo mercado para medir a percepção de risco em relação ao futuro econômico do país. Para Marco Saravalle, os contratos de longo prazo já incorporam uma visão mais cautelosa sobre a trajetória fiscal brasileira e sobre a possibilidade de manutenção de uma política de expansão dos gastos públicos.
O analista explicou que o mercado não precifica apenas uma eventual vitória eleitoral, mas também a expectativa de continuidade ou mudança na condução econômica. A ausência de sinais claros de ajuste fiscal aumenta o prêmio exigido pelos investidores para financiar a dívida pública.
“Então, o grande assunto de 2026, agora, foi o nosso famoso título IPCA+, pagava-se IPCA mais 6%, mais 7%, mais 8%, pode ser mais, pode ser mais. Na percepção que esse risco só vai continuar aumentando e pode se perpetuar”, avaliou Marco Saravalle.
Risco fiscal domina expectativas do mercado financeiro
Na avaliação dos especialistas, a pressão sobre os juros futuros está ligada principalmente à percepção de desequilíbrio fiscal. A combinação entre aumento das despesas públicas e dúvidas sobre a capacidade de ajuste mantém elevado o custo de capital no país, afetando empresas, investimentos e projetos de longo prazo.
Daoud destacou que essa leitura não está restrita aos investidores, mas envolve todo o ambiente econômico, incluindo empresas, bancos e agentes que tomam decisões com base nas expectativas futuras.
“A curva de juros, porque quando você investe, você sabe que o mercado futuro envolve trilhões, bilhões, você tem posições vendidas, posições compradas, você acredita em alguma coisa, mas quando você olha, o fluxo não é uma decisão do gestor, é uma decisão do sentimento que existe em relação ao que vai acontecer”, explicou Miguel Daoud.
Próximo governo terá desafio de promover ajustes
Independentemente do resultado das urnas, os participantes do Painel BM&C avaliaram que o próximo governo terá de enfrentar o desafio de reorganizar as contas públicas. Segundo os analistas, a manutenção de juros elevados por um período prolongado pode limitar investimentos e comprometer a expansão econômica.
A discussão sobre ajuste fiscal aparece como um dos principais pontos para a melhora das expectativas do mercado. Para os especialistas, medidas de equilíbrio nas contas públicas podem criar condições para redução dos juros e retomada do crescimento.
“O ajuste, na minha opinião, virá, por duas razões, por várias razões, que nós também não temos condição de continuar com o país com essa taxa de juros”, afirmou Miguel Daoud.
Inflação percebida pesa no comportamento dos consumidores
Outro tema debatido no programa foi a diferença entre a inflação oficial e a percepção da população. Os especialistas destacaram que os consumidores sentem com maior intensidade a variação dos preços de itens presentes no cotidiano, como alimentos, serviços e despesas recorrentes.
Para Saravalle, essa diferença entre os índices divulgados e a experiência real dos consumidores pode influenciar o cenário político, já que a economia costuma ter impacto direto na avaliação dos governos.
“A inflação média muitas vezes você vai no supermercado, o tomate subiu 40%, a cebola subiu 30%, o leite subiu não sei quanto, a carne subiu muito mais que isso. Não é aquele número médio que está ali”, destacou Marco Saravalle.
Investidor estrangeiro observa oportunidades além da política
Apesar das incertezas domésticas, o comportamento do investidor estrangeiro tende a seguir uma lógica diferente da percepção interna sobre o processo eleitoral. Segundo Saravalle, o capital internacional costuma analisar principalmente o retorno dos ativos e a relação entre risco e oportunidade.
O analista avaliou que a Bolsa brasileira pode continuar atraindo recursos caso os investidores encontrem projetos e empresas capazes de justificar o custo elevado de capital no país.
“O estrangeiro fala: se o custo de capital é de 14%, então que seja 14%. Eu preciso encontrar um projeto aqui que viabilize uma hidrelétrica, um projeto de investimento que vá justificar esses 14%”, afirmou Marco Saravalle.
Mercado aguarda definições para recalcular cenários
Com a aproximação das eleições, a tendência é que os investidores acompanhem cada vez mais as propostas econômicas dos candidatos e as sinalizações sobre responsabilidade fiscal. A definição das alianças e dos programas de governo deve reduzir parte das incertezas atuais.
Para os participantes do Painel BM&C, indicadores como curva de juros, inflação implícita e comportamento dos ativos financeiros continuarão sendo importantes para entender como o mercado interpreta o cenário político e econômico.
“O recado é que dentro do título, ele está falando assim, a inflação não vai cair em 2027 e não vai cair em 2028 e não vai cair em 2029”, analisou Marco Saravalle.
A disputa eleitoral de 2026, portanto, passa a ser observada não apenas pelo aspecto político, mas também pelos efeitos que poderá gerar sobre investimentos, consumo e crescimento econômico. O mercado busca sinais de estabilidade e de compromisso com medidas capazes de reduzir riscos no longo prazo.
No cenário atual, a principal preocupação dos investidores permanece concentrada na trajetória fiscal e na capacidade do próximo governo de construir uma estratégia econômica sustentável. A forma como os candidatos abordarão o equilíbrio das contas públicas deverá ser um dos fatores decisivos para a formação das expectativas após as eleições.














