José Maria da Silva Paranhos Júnior foi o maior diplomata da história brasileira. Foi ele que tornou o Itamaraty o que é hoje e ajudou a moldar as fronteiras atuais de nosso país, negociando com Argentina e Bolívia territórios em disputa entre o final do Século 19 e o início do Século 20. Exímio negociador e profundo conhecedor da vaidade humana, a fama de Paranhos perdura até hoje através de seu título nobiliárquico: Barão de Rio Branco. Esse símbolo da diplomacia brasileira é autor de uma das máximas de que orienta as raposas felpudas de Brasília: “Quem entra na política com a cabeça quente sai dela com a cabeça cortada”.
Este ensinamento do barão é simples, mas precioso; quem faz política com o fígado invariavelmente se dá mal. Trata-se de uma frase proferida há mais de cem anos, mas é uma lição que a direita brasileira prefere ignorar. Nesta semana, tivemos dois exemplos disso. Um deles foi o influenciador Paulo Figueiredo. Um lacrador contumaz, ele fez uma série de observações machistas sobre o voto feminino. Desopilou o fígado, mas criou um estrago que precisa ser administrado pelo senador Flávio Bolsonaro, que herdou uma antipatia que as feministas cultivavam em relação a seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Outro exemplo veio daquela que foi um dos alvos do influenciador: a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro. Na semana passada, ela publicou um vídeo no qual acusava o enteado Flávio de tê-la humilhado em uma conversa telefônica. Diante das críticas da claque bolsonarista (incluindo indiretas de Figueiredo), renunciou à presidência do PL Mulher e diz aos amigos que não mais vai concorrer ao Senado por Brasília.
Michelle tem um papel importante nesta campanha eleitoral, pois tem ascensão sobre eleitoras evangélicas e mulheres conservadoras. Trata-se de um grupo importante para a campanha de Flávio. No entanto, ela parece estar irremediavelmente rompida com o senador, em função do bombardeio digital sofrido pelos apoiadores do pré-candidato do PL.
Este é um momento da verdade para a ex-primeira-dama. Embora tenha razões de sobra para ficar magoada com os ataques vindos da rede social, Michelle precisa decidir agora se quer de fato entrar para a política. Estes dissabores foram apenas um aperitivo: outros poderão vir à frente, especialmente se ela for eleita. É por isso que as reações emocionais nada ajudam os políticos. Nesta seara, o inimigo de hoje poderá ser o aliado de amanhã.
Quem viu a campanha presidencial de 1989 e testemunhou os embates entre Fernando Collor de Mello e Luiz Inácio Lula da Silva não entendeu direito o palanque montado em Alagoas durante a campanha de 2002, com o ex-presidente ao lado do então candidato do PT.
Em meio a tantos movimentos impulsivos, os episódios recentes reforçam que a política exige sangue‑frio, cálculo e capacidade de enxergar além das ofensas do dia. Alguns ícones da direita precisam aprender a atravessar tempestades sem perder o rumo. Alianças mudam, cenários viram do avesso e a sobrevivência política depende menos de indignações momentâneas e mais da habilidade de manter a cabeça no lugar quando todos ao redor parecem dispostos a perdê‑la.
*Coluna escrita por Aluizio Falcão Filho, é jornalista, articulista e publisher do portal Money Report. Foi diretor de redação da revista Época e diretor editorial da Editora Globo, com passagens por veículos como Veja, Gazeta Mercantil, Forbes e a vice-presidência no Brasil da agência de publicidade Grey Worldwide
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