Quando Donald Trump ameaça impor novas tarifas contra o Brasil, o noticiário imediatamente entra em modo apocalipse. Surgem previsões de colapso das exportações, recessão iminente, ruptura diplomática e, se alguém procurar com atenção suficiente, provavelmente encontrará alguém prevendo até o fim da civilização ocidental. Mas talvez estejamos olhando para o lugar errado.
A pergunta mais interessante não é se Trump vai ou não aplicar tarifas. A pergunta relevante é: por que um país que tradicionalmente mantém superávit comercial com o Brasil decidiu transformar o Brasil em alvo político? Porque aqui existe uma ironia pouco discutida.
Historicamente, o argumento utilizado pelos Estados Unidos para justificar barreiras comerciais costuma ser o déficit comercial. Foi assim com a China, com o México e com diversos parceiros comerciais. O problema é que, no caso brasileiro, essa narrativa não encaixa perfeitamente. Em muitos anos, os próprios Estados Unidos venderam mais para o Brasil do que compraram. Ou seja: o problema não parece ser exatamente econômico. E quando o problema não é econômico, normalmente estamos falando de poder.
A verdade inconveniente é que as tarifas modernas raramente são apenas tarifas. Elas se transformaram em uma espécie de canivete suíço da política internacional. Servem para pressionar governos, influenciar decisões regulatórias, sinalizar posições geopolíticas e enviar mensagens para audiências domésticas.
O imposto virou diplomacia com recibo. Por isso, talvez seja um erro analisar o episódio apenas olhando para contêineres, navios e balanças comerciais. O mundo entrou em uma nova Guerra Fria. Não uma guerra entre capitalismo e comunismo como no século XX, mas uma disputa por tecnologia, inteligência artificial, semicondutores, minerais críticos, energia, dados e influência geopolítica.
Nesse novo tabuleiro, países são cada vez mais pressionados a escolher lados, ainda que ninguém admita isso publicamente. E é justamente aí que o Brasil se encontra em uma posição curiosa. O país participa dos BRICS, mantém forte relação comercial com a China, preserva laços históricos com os Estados Unidos, vende commodities para o mundo inteiro e tenta, ao mesmo tempo, continuar afirmando sua autonomia estratégica.
É uma posição confortável quando o clima está bom. O problema é quando começa a tempestade. Porque a lógica das grandes potências raramente aprecia neutralidades sofisticadas. Grandes potências gostam de alinhamentos simples. O investidor estrangeiro entende isso. Aliás, talvez ele entenda melhor do que nós.
Enquanto parte do debate brasileiro discute se a tarifa será de 10%, 20% ou 25%, muitos gestores globais estão fazendo uma pergunta diferente: “O Brasil continua sendo um mercado previsível?” Essa pergunta vale bilhões.
Investidores não fogem apenas de impostos. Eles fogem de incerteza. Uma tarifa de 25% pode ser calculada em uma planilha. Instabilidade geopolítica não. É por isso que o impacto econômico direto de um eventual tarifaço pode acabar sendo menor do que o impacto psicológico. O mercado não precifica apenas exportações. Ele precifica confiança. E confiança é um ativo curioso: leva anos para ser construída e poucos meses para ser questionada.
Isso significa que o Brasil deveria entrar em pânico? Absolutamente não. Aliás, existe uma segunda ironia nessa história. O Brasil de 2026 é muito menos dependente dos Estados Unidos do que era décadas atrás. A China é hoje o principal parceiro comercial do país. E justamente quando Washington ameaça erguer muros tarifários, Bruxelas abre portas através do acordo União Europeia-Mercosul. As exportações brasileiras estão mais diversificadas. O mercado interno continua relevante. E diversos produtos estratégicos brasileiros permanecem importantes para cadeias globais de suprimento.
Em outras palavras, o Brasil não é uma vítima indefesa aguardando seu destino. Mas também seria ingenuidade imaginar que nada está acontecendo. Quando a maior economia do mundo ameaça tarifas contra a nona maior economia do planeta, o assunto não é comércio exterior. Comércio exterior é apenas a superfície. A conversa verdadeira acontece alguns andares acima. E talvez essa seja a principal lição do episódio.
O tarifaço de Trump pode ou não acontecer. Pode ser reduzido, negociado ou parcialmente implementado. Mas a pergunta que ficará depois das manchetes é outra. Em um mundo cada vez mais dividido em blocos, até quando países como o Brasil conseguirão permanecer sentados em várias mesas ao mesmo tempo? Porque, mais cedo ou mais tarde, alguém sempre pergunta de que lado você está. E a conta quase nunca chega na forma de uma tarifa. Ela chega na forma de uma escolha.
*Coluna escrita por Fabio Ongaro, economista, empresário italiano no Brasil e CEO da Energy Group
*As opiniões transmitidas pelo colunista são de responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a opinião da BM&C News.
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