Em 1º de junho de 2026, o Escritório de Comércio dos Estados Unidos (USTR) concluiu uma investigação aberta um ano antes e propôs uma tarifa de 25% sobre as importações brasileiras. A leitura apressada dirá que é mais um capítulo da guerra comercial global. A leitura atenta dirá outra coisa: trata-se de um instrumento de política, não de comércio. E a pergunta que importa nunca é “o que aconteceu?”, mas “o que isso significa e o que pode acontecer a partir daqui?”.
A própria arquitetura da medida entrega o jogo. A lista de exceções ocupa 73 páginas e preserva justamente o que interessa à economia americana — aeronaves, fármacos, fertilizantes, químicos, terras raras e frutas tropicais. Tarifa-se o suficiente para pressionar; isenta-se o suficiente para não gerar desabastecimento nem inflação dentro de casa. Isso não é disputa por déficit comercial. É uma alavanca calibrada para interferir em decisões internas brasileiras, do Pix — que ameaça as bandeiras de cartão americanas — às decisões do Supremo. Tarifa, aqui, é só a embalagem; o conteúdo é geopolítica.
Aqui começa o ponto inegociável. O Brasil não é uma fazenda à espera de comprador. Somos uma das dez maiores economias do planeta, uma sociedade complexa, com indústria, agricultura de ponta, sistema financeiro sofisticado e um setor de pagamentos tão eficiente que virou alvo exatamente por funcionar bem demais. Uma nação que constrói esse tipo de ativo não se ajoelha por causa de uma planilha tarifária. Nunca nos subjugamos; não há razão para começar agora.
O alerta, porém, precisa ser feito a quem deveria ser o primeiro a defender o país. Parte da extrema direita brasileira escolheu o caminho inverso: buscar em Washington o apoio que não consegue construir aqui dentro. Em maio, o senador Flávio Bolsonaro esteve com Trump e, por seu próprio relato, ofereceu as terras raras brasileiras como “a única alternativa real à China”, pediu o recuo das tarifas e acenou com um alinhamento estratégico automático. Traduzindo: coloca-se na mesa o subsolo, o sistema de pagamentos e a política externa em troca de afago político. É legítimo, então, fazer a pergunta direta — vamos entregar o Brasil de graça?
Há nisso uma contradição que desmonta o próprio vocabulário desse grupo. Patriota é quem defende o país, inclusive — e sobretudo — de aliados poderosos. Não se pode hastear a bandeira e, ao mesmo tempo, convidar uma potência estrangeira a arbitrar a política interna. Mesmo que o objetivo seja derrubar um governo julgado ruim, o instrumento escolhido não pode ser o interesse de fora. Quem faz isso troca o conceito de pátria por conveniência e chama de patriotismo o que é, na prática, vassalagem.
A história oferece um teste simples. Nenhuma nação que conquistou seu lugar no mundo precisou de tutor externo para resolver suas crises internas. A Guerra Civil americana foi travada entre dois lados dos próprios Estados Unidos. A Revolução Francesa foi um processo francês. A Revolução Inglesa, um processo inglês. A Revolução Russa amadureceu por anos, com o país despedaçado pela Primeira Guerra — e ainda assim foi feita por russos, em solo russo. Transformação política com densidade histórica nasce de dentro. O que vem de fora, sob pressão tarifária, não é mudança: é tutela.
E é exatamente aqui que o diagnóstico fica desconfortável para todos. Se de um lado temos um governo frequentemente acusado de ser ineficiente, gastador e exposto a suspeitas de corrupção, do outro a oposição revela algo igualmente grave: a incapacidade de oferecer uma alternativa viável, construída em solo nacional. Recorrer a Trump para vencer um adversário interno é, no fundo, uma confissão de impotência. A queda de braço por quem oferece mais terras raras a Washington — porque o governo atual também as ofereceu — escancara que a falta de projeto está dos dois lados.
O que pode acontecer a partir daqui? Vejo três caminhos. No primeiro, o Brasil negocia como adulto: cede no que é técnico e protege o que é estratégico, tratando soberania como ativo, e não como bandeira retórica. No segundo, transforma a tarifa em palanque eleitoral, paralisa qualquer solução e paga a conta em empregos e investimento. No terceiro, o mais perigoso, naturaliza a ideia de que crises internas se resolvem com padrinhos externos — e aí o custo não se mede em pontos percentuais, mas em décadas de autonomia perdida.
Tarifa se renegocia. Soberania, uma vez terceirizada, raramente volta. A pergunta que o país precisa responder antes de julho não é quanto vamos pagar. É quem decide o Brasil. E o patriota de verdade já sabe que essa resposta não se assina de joelhos em Washington.
*Carlos Honorato é economista, PhD e mestre em Administração, especialista em estratégia, cenários econômicos e Scenario Planning. É CEO da OUTPOD e professor da FIA Business School e do Albert Einstein.
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