A falência da GM, em 1º de junho de 2009, entrou para a história como um dos episódios mais simbólicos da crise financeira global e da indústria automotiva dos Estados Unidos. Naquele dia, a General Motors entrou com pedido de proteção judicial pelo Chapter 11 no tribunal federal de Manhattan.
O processo não significava liquidação imediata da companhia. Pelo modelo do Chapter 11, a empresa poderia continuar operando enquanto renegociava dívidas, contratos e sua estrutura de custos. No caso da GM, a reorganização foi conduzida com apoio direto do governo americano.
Na época, a montadora informou ter US$ 172,81 bilhões em dívidas e US$ 82,29 bilhões em ativos. Com isso, tornou-se a quarta maior falência da história dos Estados Unidos naquele momento e a maior falência industrial do país.
Por que a GM quebrou?
A crise da General Motors não foi provocada por um único fator. A companhia já enfrentava problemas estruturais havia anos, incluindo custos fixos elevados, obrigações trabalhistas e de saúde com aposentados, perda de participação de mercado, excesso de marcas e uma rede de concessionárias maior do que sua realidade operacional permitia.
Além disso, a GM tinha dificuldade para competir com montadoras japonesas mais eficientes. A crise financeira de 2008 acelerou esse processo ao travar o crédito, reduzir a capacidade de financiamento dos consumidores e pressionar concessionárias que dependiam de capital para manter suas operações.
Com a demanda por veículos em queda, a montadora acumulou cerca de US$ 81 bilhões em perdas nos quatro anos anteriores ao pedido de proteção judicial.
O que já era um problema operacional se transformou em uma crise financeira de grandes proporções.
Governo americano entrou para evitar efeito dominó
O governo dos Estados Unidos decidiu intervir para evitar uma liquidação desordenada da GM. A preocupação era que a quebra da companhia atingisse fornecedores, concessionárias, trabalhadores e uma parte relevante da cadeia industrial automotiva americana.
Durante o processo, o Tesouro americano preparou cerca de US$ 30,1 bilhões em financiamento adicional para manter a empresa funcionando durante o Chapter 11. Em troca, o governo ficou com cerca de 60% da nova GM. Canadá e Ontário também participaram do resgate, com cerca de 12% da nova companhia.
A operação separou a empresa em duas partes. A chamada Nova GM ficou com os ativos considerados viáveis e com as marcas principais. Já a antiga GM, depois chamada de Motors Liquidation Company, ficou com passivos, ativos problemáticos e estruturas que seriam encerradas ou vendidas.
Nova GM ficou menor, mais enxuta e com menos marcas
A nova companhia passou a concentrar sua estratégia em Chevrolet, Cadillac, Buick e GMC. Outras marcas, como Pontiac, Saturn, Hummer e Saab, foram encerradas, vendidas ou deixaram de fazer parte do centro estratégico da montadora.
A reestruturação também envolveu fechamento de fábricas, corte de funcionários, redução de concessionárias e renegociação de obrigações trabalhistas e de saúde. Na época, a GM planejava cortar cerca de 21 mil funcionários, reduzir em 2.600 o número de concessionárias e seguir com apenas quatro marcas principais.
Os antigos acionistas praticamente perderam o investimento. A SEC registrou que a antiga GM estava insolvente e que não havia valor esperado para os acionistas comuns no processo de liquidação.
Quanto custou o resgate da GM?
Apesar do tamanho da operação, a saída da recuperação judicial foi rápida. A GM deixou a proteção judicial em 10 de julho de 2009, cerca de 40 dias após o pedido. Na prática, a companhia saiu menor, menos endividada e com custos operacionais reduzidos.
O Tesouro dos Estados Unidos investiu US$ 49,5 bilhões para estabilizar e reestruturar a montadora. Em 2013, o governo vendeu sua participação final na companhia. Segundo os dados do material, o governo recuperou US$ 39 bilhões e registrou perda final de cerca de US$ 10,5 bilhões no resgate.
O caso da GM mostra que empresas grandes também quebram quando perdem eficiência estrutural. Também evidencia como crises de crédito podem transformar fragilidades operacionais em colapso financeiro e como setores considerados estratégicos podem receber apoio estatal quando sua queda ameaça emprego, cadeia produtiva e estabilidade econômica.













