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Estudo propõe novo mapa de competitividade para o Brasil com autonomia e produtividade: veja como

Análise do professor aponta Zonas Econômicas Especiais como caminho para reduzir Custo Brasil, atrair investimentos e dar mais competitividade regional ao país

Renata NunesPor Renata Nunes
30/05/2026

E se parte da solução para a baixa competitividade brasileira estiver em dar mais autonomia econômica aos estados e regiões estratégicas? A pergunta ganhou força durante o Painel BM&C desta semana, em um debate sobre fuga de indústrias, custo de produção, produtividade e impactos de mudanças trabalhistas sobre o setor produtivo.

A discussão, inicialmente ligada ao ambiente de negócios, avançou para uma reflexão estrutural: o Brasil é um país continental, com realidades econômicas muito diferentes, mas ainda concentra grande parte das decisões fiscais, regulatórias e econômicas em Brasília.

Nesse contexto, o professor e economista Carlos Honorato Teixeira, da FIA Business School fez um estudo exclusivo para a BM&C News para avaliar minunciosamente o tema.

O material analisa a criação de Zonas Econômicas Especiais (ZEEs) no Brasil como instrumento para elevar a competitividade tributária, atrair capital produtivo e transformar regiões com vocações específicas em polos de desenvolvimento.

Brasil centralizado perde espaço na disputa por investimentos

A provocação central do debate é que o Brasil pode estar operando com uma estrutura excessivamente centralizada para um país de dimensões continentais. Enquanto outros países usam autonomia regional, regimes especiais e competição entre jurisdições como instrumentos de atração de empresas, o Brasil avança lentamente em modelos capazes de adaptar regras às diferentes realidades econômicas locais.

Nos Estados Unidos, o estado Delaware se tornou referência global em atração empresarial ao combinar regras mais simples, segurança jurídica e ambiente regulatório competitivo. Na China, as zonas econômicas especiais foram decisivas para acelerar a industrialização, ampliar exportações e aumentar produtividade. Já o Paraguai passou a atrair empresas brasileiras ao oferecer menor custo operacional, tributação reduzida e menos burocracia.

No Brasil, a lógica ainda é diferente. O ambiente de negócios é marcado por carga tributária elevada, complexidade fiscal, insegurança jurídica e dificuldade de adaptação regional. Para empresas que disputam mercado global, essa combinação pesa diretamente no custo de produzir dentro do país.

O estudo de Carlos Honorato

O estudo de Carlos Honorato parte de um diagnóstico direto: o Brasil tributa muito, tributa mal e torna o investimento mais caro. Segundo os dados apresentados no estudos, a carga tributária brasileira chegou a 32,4% do PIB em 2025, o maior nível da série histórica. O país também aparece como a 6ª maior tributação do mundo e a maior entre as grandes economias emergentes.

Além da carga elevada, o estudo destaca o peso do chamado Custo Brasil, que adiciona uma penalidade média superior a 30% à competitividade das empresas.

Indicador citado no estudo Dado apresentado
Carga tributária brasileira em 2025 32,4% do PIB
Posição global em tributação 6ª maior do mundo
Penalidade média do Custo Brasil Acima de 30%
IR considerado para empresas elegíveis em ZEEs 5% a 10%
Vigência da Zona Franca de Manaus Até 2073

A leitura do professor é que essa estrutura contribui para a fuga de capital, a perda de competitividade industrial e a migração de empresas para jurisdições mais previsíveis.

Zonas Econômicas Especiais como federalismo competitivo

O estudo não trata as ZEEs como benefício isolado, mas como um instrumento de federalismo competitivo. A lógica é permitir que regiões com vocações distintas tenham condições específicas para disputar investimentos, gerar empregos e ampliar a base econômica local.

O desenho analisado por Honorato considera cinco pilares principais:

  • IR reduzido, com alíquota efetiva entre 5% e 10% para empresas elegíveis;
  • IVA — IBS/CBS simplificado, com mais previsibilidade e menor complexidade;
  • Desoneração do comércio exterior, especialmente em polos logísticos;
  • Segurança jurídica, com regras estáveis e contratos de longo prazo;
  • Conformidade internacional, com padrões OCDE, transparência e mecanismos antielisão.

A ideia é tornar ambientes econômicos mais previsíveis, com foco em setores estratégicos e metas de resultado. Em vez de uma disputa fiscal desorganizada, o modelo estudado busca combinar competitividade tributária, governança e controle institucional.

Onde as ZEEs poderiam ser aplicadas

O estudo divide as regiões em dois grandes grupos: os ex-territórios da fronteira amazônica e cidades estratégicas com vocações urbanas já estabelecidas.

Ex-territórios da fronteira amazônica

Região Vocação econômica indicada no estudo
Amapá e Roraima Logística, comércio com Caribe, Guiana e Venezuela, indústria e mineração sustentável
Acre Bioeconomia, turismo ecológico, conexão com Peru e Bolívia e corredor de exportação ao Pacífico
Rondônia Agronegócio exportador, hidrovias, formalização econômica e redução do desmatamento ilegal

Nessas regiões, o estudo aponta que a baixa densidade populacional e a base tributária reduzida tornam o impacto fiscal inicial menor, enquanto a localização de fronteira pode se transformar em vantagem logística e produtiva.

Cidades estratégicas

Cidade Estado Vocação indicada
Itajaí Santa Catarina Logística, porto, comércio internacional e sedes de multinacionais
Poços de Caldas Minas Gerais Saúde, bem-estar, turismo termal, indústria farmacêutica e eventos
Maceió Alagoas Turismo, cruzeiros, nômades digitais e turismo náutico

Itajaí aparece no estudo como o primeiro laboratório natural para o modelo, por já contar com infraestrutura portuária e vocação logística.

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“A cidade poderia funcionar como vitrine para mensurar resultados antes de uma expansão gradual para outras regiões”, destaca.

Manaus como evidência brasileira

Temos no Brasil a Zona Franca de Manaus. O modelo é apresentado como evidência de que um regime tributário especial pode gerar indústria, emprego e preservação ambiental quando há desenho institucional e foco econômico. Mesmo com muita crítica, para o bem e para o mal é a Zona Franca de Manaus que tem sustentado a região.

Segundo os dados citados no material, o Polo Industrial de Manaus registrou R$ 204 bilhões em faturamento em 2024, alta de 16% sobre 2023.

O modelo também sustenta cerca de 130 mil empregos diretos nas fábricas e mais de 500 mil empregos diretos e indiretos no Amazonas.

Zona Franca de Manaus Dados citados no estudo
Faturamento em 2024 R$ 204 bilhões
Alta sobre 2023 16%
Empregos diretos nas fábricas Cerca de 130 mil
Empregos diretos e indiretos Mais de 500 mil
Cobertura florestal preservada 97%

Para Honorato, Manaus mostra que regimes especiais podem ser usados para interiorizar desenvolvimento, criar empregos e preservar ativos ambientais.

Menos alíquota, mais base econômica

A tese econômica do estudo é que a redução de alíquotas pode ampliar a base econômica local. Com mais empresas, empregos, consumo e formalização, a arrecadação indireta pode crescer ao longo do tempo.

O material apresenta uma simulação ilustrativa da atividade econômica local, com índice base 100.

Cenário Ano 0 Ano 3 Ano 6 Ano 9 Ano 12
Sem ZEE 100 108 117 126 136
Com ZEE 100 142 205 286 372

O estudo ressalta que a simulação não representa uma previsão fechada. A calibragem exigiria modelagem fiscal específica para cada zona. Ainda assim, o material aponta potencial de atração de investimento estrangeiro direto, geração de empregos e fortalecimento de setores como logística, turismo, agroindústria, serviços e bioeconomia.

Riscos existem, mas podem ser controlados

Um dos principais pontos sensíveis do debate sobre maior autonomia econômica regional é o risco de renúncia de receita, guerra fiscal e aumento das desigualdades entre estados.

O estudo reconhece esses riscos e apresenta mecanismos de mitigação. Entre eles estão:

  • Cláusulas de sunset, com revisão dos benefícios a cada 15 ou 20 anos;
  • Compensação federativa, para proteger estados e municípios;
  • Foco setorial, evitando incentivos amplos e permanentes;
  • Padrões OCDE, com transparência e regras antielisão;
  • Métricas públicas, para acompanhar investimento, emprego, arrecadação e impacto regional.

“A diferença está no desenho institucional. O objetivo não seria criar exceções permanentes, mas ambientes controlados de competitividade regional, com metas, prazo e governança”, analisa Honorato.

O Brasil precisa competir por capital

A discussão levantada no Painel BM&C e aprofundada pelo estudo de Carlos Honorato toca em uma questão central para o futuro da economia brasileira: o país ainda consegue competir em um mundo que disputa capital, indústria e produtividade de forma cada vez mais agressiva?

Empresas globais buscam ambientes com menor custo, mais previsibilidade e regras mais simples. Quando um país aumenta burocracia, insegurança e custo de produção, o capital tende a migrar.

Nesse sentido, as Zonas Econômicas Especiais aparecem como uma forma de transformar diferenças regionais em vantagem competitiva. Em vez de tratar todos os estados sob a mesma lógica econômica, o Brasil poderia criar instrumentos para que cada região desenvolva sua vocação.

A pergunta final é menos ideológica e mais prática: o Brasil está protegendo sua economia ou tornando cada vez mais difícil produzir dentro dela?

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