No litoral oeste do Ceará, a 287 km de Fortaleza, Jijoca de Jericoacoara guarda uma das paisagens mais raras do Brasil. As ruas de areia, o céu estrelado sem iluminação pública e o pôr do sol que se aplaude todos os dias fizeram da vila um destino conhecido em todos os continentes.
Dos índios Tremembés ao plebiscito de 1990
O território era habitado pelos índios Tremembés e aparece em cartas geográficas portuguesas desde o século XVII. Em 1614, os portugueses ergueram o forte de Nossa Senhora do Rosário ao pé do serrote para enfrentar piratas franceses que ameaçavam a costa, segundo a Prefeitura Municipal de Jijoca de Jericoacoara.
A região permaneceu praticamente intocada por séculos. Até meados de 1985, Jeri era uma aldeia de pescadores sem energia elétrica, sem estrada e acessível apenas por trilhas na areia. O plebiscito de 17 de setembro de 1990 selou a emancipação do município de Cruz, e a Lei Estadual 11.796, sancionada em 6 de março de 1991, criou oficialmente o município. A energia elétrica subterrânea chegou só em 1998.

Por que a vila não tem asfalto nem postes de iluminação pública?
A restrição não é desleixo, é norma ambiental. Toda a vila de Jericoacoara fica nos arredores do Parque Nacional homônimo, unidade de conservação federal criada em 4 de fevereiro de 2002 pelo Decreto Presidencial 90.379, conforme o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). A legislação proíbe iluminação pública convencional para preservar o ciclo das tartarugas marinhas e das aves migratórias.
O efeito visual é único no Brasil: à noite, apenas a luz dos bares e pousadas ilumina as ruas, e o céu estrelado fica completamente visível. O nome do destino vem do tupi îurukûá kuara, que significa toca das tartarugas, em referência à desova que ainda acontece na praia. A fama internacional explodiu nos anos 1980, quando o jornalista americano Cal Fussman cruzou as dunas e publicou no The Washington Post uma reportagem que classificou a praia entre as dez mais bonitas do planeta.

O 3º parque nacional mais visitado do Brasil em 2024
A unidade de conservação federal abrange 8.850 hectares e protege dunas móveis, lagoas interdunares, manguezais e uma faixa marítima de 1 km paralela à costa, segundo dados do ICMBio. Em 2024, o parque recebeu mais de 1,2 milhão de visitas e ficou em terceiro lugar no ranking nacional, atrás apenas dos Parques Nacionais da Tijuca e de Iguaçu.
A administração é feita em conjunto pelo município e por concessionária do ICMBio. A Vila de Jericoacoara, conforme decisão do Tribunal Regional Federal da 5ª Região, não integra a área do Parque, e o acesso à vila não exige pagamento de ingresso, segundo a Justiça Federal.
O que visitar entre dunas, lagoas e a Pedra Furada?
O roteiro mistura cartões-postais naturais e rituais coletivos no fim da tarde. Os pontos imperdíveis ficam no Parque ou nos arredores da vila, acessíveis a pé, em buggy 4×4 ou a cavalo.
- Pedra Furada: arco rochoso esculpido pelo mar, símbolo da região, acessível por trilha de cerca de 4,5 km na maré baixa. Em julho e agosto, o sol se põe exatamente no vão do arco.
- Duna do Pôr do Sol: ponto mais concorrido no fim da tarde, onde o sol mergulha diretamente no oceano. Os visitantes aplaudem o espetáculo todos os dias.
- Lagoa do Paraíso: também chamada de Lagoa de Jijoca, tem 15 km² de água doce, redes dentro da água e beach clubs à margem.
- Lagoa Azul: vizinha da Lagoa do Paraíso, com águas cristalinas em tons mais profundos e ambiente mais sossegado.
- Serrote e Farol: ponto culminante do parque, com 95 metros de altura e vista panorâmica da vila, das dunas e do oceano.
- Pedra do Frade: formação rochosa esculpida pelo mar, ao lado da Pedra Furada, acessível pela mesma trilha.
Quem deseja planejar a viagem perfeita para um dos destinos litorâneos mais famosos e cobiçados do Nordeste, vai adorar este vídeo do canal Rolê Família. Ele serve como um guia completo para um roteiro de 4 dias em Jericoacoara, no Ceará, apresentando belezas naturais, passeios de aventura, dicas de hospedagem de alto padrão e gastronomia de elite:
Preá, Mangue Seco e os cavalos-marinhos do Rio Guriú
Os arredores da vila concentram alguns dos passeios mais procurados, especialmente entre julho e dezembro, quando os ventos constantes atraem praticantes de kitesurf de todo o mundo.
- Praia do Preá: a 12 km da vila, é referência mundial em kitesurf e windsurf, com escolas para iniciantes e profissionais.
- Manguezal do Rio Guriú: passeio de canoa permite avistar cavalos-marinhos em seu habitat natural, em uma das poucas regiões do país onde isso ainda é possível.
- Mangue Seco: pequeno povoado a oeste da vila, com lagoa entre dunas e uma faixa de mangue parcialmente ocupada pelo mar.
- Nova Tatajuba: comunidade a 25 km, próxima a Camocim, com dunas fixas em processo de cristalização.
Quando o clima favorece cada tipo de passeio?
O período de chuvas se concentra entre fevereiro e maio, quando as lagoas ficam mais cheias. De julho a dezembro, o vento constante atrai kitesurfistas. As temperaturas variam pouco ao longo do ano, segundo o Climatempo.
| Estação | Meses | Temperatura | Chuva | O que fazer |
|---|---|---|---|---|
| Verão | Dez-Fev | 24-31°C | Média | Kitesurf e duna do pôr do sol |
| Outono | Mar-Mai | 24-30°C | Alta | Lagoas cheias e mangue |
| Inverno | Jun-Ago | 23-30°C | Baixa | Pedra Furada e Praia do Preá |
| Primavera | Set-Nov | 24-32°C | Muito baixa | Esportes de vento e dunas |
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. A umidade fica entre 70% e 85% durante todo o ano.
Como chegar à vila mais isolada do Ceará
A 287 km de Fortaleza, o trajeto mais comum sai pela CE-085 (Estruturante) em cerca de 5 horas de carro ou ônibus. O acesso final ao distrito de Jericoacoara só pode ser feito de veículos 4×4 credenciados, que cruzam as dunas a partir da sede do município. O Aeroporto Regional de Jericoacoara, em Cruz, opera voos diretos de São Paulo e Belo Horizonte na alta temporada. A 8 km do aeroporto, transfers conduzem os passageiros até o ponto de troca para o 4×4.
Conheça a vila brasileira onde a lua substitui o poste de luz
Poucos lugares do mundo conseguem manter ruas de areia, céu estrelado e dunas móveis em meio ao crescimento turístico. A antiga aldeia de pescadores virou destino internacional sem perder o silêncio que encantou o Washington Post.
Você precisa atravessar as dunas no buggy de fim de tarde e sentir por que Jericoacoara virou estado de espírito para tanta gente.

