Na recepção oficial ao presidente Donald Trump em Pequim, no Great Hall of the People, em 14 de maio, o presidente Xi Jinping fez algo muito mais sofisticado do que um simples gesto protocolar entre chefes de Estado.
Ao mencionar explicitamente a chamada “Armadilha de Tucídides”, o líder chinês procurou reposicionar a narrativa equivocada sobre a competição estratégica entre a China e os Estados Unidos.
A referência não foi casual. A teoria, popularizada pelo professor Graham Allison, de Harvard, sustenta que o risco de guerra aumenta quando uma potência emergente ameaça deslocar uma potência dominante. A inspiração vem da Guerra do Peloponeso, quando a ascensão de Atenas despertou o medo de Esparta e conduziu o mundo grego à devastação.
Durante anos, muitos interpretaram essa teoria como um aviso implícito à China: ascender rapidamente demais poderia provocar uma reação inevitável de contenção por parte dos Estados Unidos. Xi Jinping, contudo, procurou inverter sutilmente essa lógica.
Ao afirmar que a China e os Estados Unidos precisam “transcender a Armadilha de Tucídides”, o líder chinês rejeitou a ideia de que o conflito seja inevitável. Mais do que isso: sugeriu que a verdadeira armadilha talvez não esteja na ascensão da República Popular da China em si, mas na incapacidade psicológica das potências estabelecidas de aceitar transformações na distribuição global de poder. Foi uma formulação extremamente inteligente.
Ao utilizar um conceito profundamente ocidental diante de Donald Trump, Xi não apenas demonstrou sofisticação intelectual e consciência histórica, mas também deslocou parte da responsabilidade estratégica para Washington. Em essência, a mensagem foi clara: a China não pretende impedir a sua própria ascensão para tranquilizar ansiedades hegemônicas alheias.
A posição chinesa contemporânea procura, precisamente, construir uma narrativa alternativa à lógica clássica das transições de poder. Beijing insiste em conceitos como “cooperação ganha-ganha”, “comunidade de futuro compartilhado” e “multipolaridade”, tentando convencer o mundo de que a ascensão não precisa necessariamente implicar hegemonia.
Naturalmente, há ceticismo no Ocidente. Toda potência ascendente, argumentam os críticos, afirma inicialmente possuir intenções pacíficas. Ainda assim, a simples decisão de Xi Jinping de trazer Tucídides ao centro do encontro revela algo importante: a disputa entre a China e os Estados Unidos já deixou de ser apenas econômica ou tecnológica. Tornou-se uma disputa filosófica sobre a própria natureza da ordem internacional.
Talvez a questão mais relevante do século XXI já não seja saber se a China ascenderá. Isso já é uma realidade irreversível. A verdadeira questão é se os Estados Unidos conseguirão adaptar-se psicologicamente a um mundo em que já não exercerão a centralidade absoluta que marcou o pós-Guerra Fria.
A História mostra que impérios raramente entram em declínio apenas pela perda de riqueza ou de poder militar. Frequentemente – como a Europa deveria ensinar aos Estados Unidos –começam a enfraquecer quando deixam de conseguir acomodar novas realidades históricas. E foi precisamente isso que Xi Jinping, sutilmente, recordou ao mundo e, principalmente, a Trump, em Beijing.
*Coluna escrita por Marcus Vinícius de Freitas, professor visitante na China Foreign Affairs University, e Senior Fellow no Policy Center for the New South. Tem vasta experiência em relações internacionais e é colunista da BM&C News.
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