O encontro entre Donald Trump e Xi Jinping abriu uma nova etapa de leitura para os mercados globais. No centro da discussão do Painel BM&C, a avaliação foi que Estados Unidos e China buscaram reduzir a temperatura da disputa comercial e geopolítica, mas sem resolver os pontos estruturais da rivalidade entre as duas maiores potências do mundo.
Para Roberto Dumas, a leitura do encontro passa pela capacidade chinesa de administrar a disputa em um horizonte mais longo. Na avaliação dele, Pequim soube usar sua posição em temas estratégicos, como terras raras, comércio e Taiwan, enquanto Trump buscava resultados mais imediatos no campo econômico e eleitoral.
“Eu acho que quem soube administrar mais a rivalidade, no caso aqui, foram os chineses”, afirmou Dumas.
China joga no longo prazo, enquanto Trump busca ganhos imediatos
Caio Blinder avaliou que o encontro poderia ter produzido mais tensão, mas acabou funcionando como uma trégua de conveniência. Para ele, Trump adotou uma postura mais pragmática e negociadora, embora sem entregar resultados substantivos em temas centrais da relação bilateral.
Na visão do jornalista, a China tende a se beneficiar de um impasse estratégico, já que opera com uma lógica de longo prazo, enquanto o presidente americano lida com pressões eleitorais, inflação e humores internos. O caso de Taiwan, segundo ele, continua sendo um ponto sensível e sem solução clara.
“Os dois estão numa situação de impasse estratégico”, disse Blinder.
Taiwan segue como variável central da disputa geopolítica
A questão de Taiwan apareceu como um dos principais riscos na relação entre Estados Unidos e China. Dumas lembrou que, historicamente, Washington mantém uma posição ambígua sobre o tema, evitando apoiar formalmente a independência, mas preservando canais de apoio militar e estratégico à ilha.
Blinder avaliou que a postura transacional de Trump aumenta a incerteza para aliados e rivais. Para ele, o problema não está apenas em Taiwan, mas na dificuldade de prever como o presidente americano pode agir em uma crise internacional envolvendo aliados estratégicos dos Estados Unidos.
“Ele é transacional, então, você não pode contar. Se você seja inimigo, seja aliado, você não sabe como ele vai agir”, afirmou Blinder.
Brasil tenta se posicionar entre China, Estados Unidos e Ásia
O debate também passou pelo papel do Brasil diante da reorganização do comércio global. Para Miguel Daoud, a reabilitação de frigoríficos americanos pela China não deve ser interpretada como ameaça imediata ao Brasil, já que os Estados Unidos enfrentam restrições de oferta no setor de carne.
Ainda assim, os analistas destacaram que o Brasil precisa tratar o mercado externo com pragmatismo e reduzir a dependência excessiva de um único comprador. A China segue como parceira relevante, mas a diversificação para outros mercados asiáticos foi apontada como caminho estratégico para diminuir riscos comerciais.
“O Brasil também não pode ficar dependendo de um país só 33% das nossas vendas”, destacou Dumas.
Política interna pesa sobre economia e cenário eleitoral
No bloco sobre Brasil, os convidados discutiram a relação entre política, populismo fiscal e eleições. Miguel Daoud avaliou que medidas de estímulo e desonerações podem ter impacto limitado na percepção do eleitor, especialmente em um ambiente de insatisfação econômica e desgaste político.
O debate também abordou os efeitos de escândalos recentes sobre a oposição e sobre a dinâmica eleitoral. Para Daú, a crise envolvendo Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro tende a pressionar o PL e pode alterar a estratégia da direita na disputa presidencial.
“O caso master, ele vai evoluir para cima do PL, da direita e do centro”, afirmou Daoud.
Crédito, juros e fiscal seguem no centro das preocupações
Dumas avaliou que o Brasil vive uma combinação de política fiscal expansionista e política monetária restritiva. Segundo ele, medidas de crédito e estímulo podem sustentar a demanda no curto prazo, mas também ampliam riscos em um ambiente de juros elevados e endividamento das famílias.
Na avaliação do economista, a falta de harmonia entre fiscal e monetário dificulta uma trajetória mais saudável para a economia. Ele citou o comprometimento da renda das famílias, a seletividade dos bancos e o aumento de provisões como fatores que limitam a efetividade de novas linhas de crédito.
“É preciso ter fiscal e monetária harmoniosos. Eles não são harmoniosos”, afirmou Dumas.
Crise de liderança amplia volatilidade no Brasil e no mundo
Na conclusão, Blinder afirmou que a dificuldade de lideranças políticas em responder às demandas sociais não é um fenômeno brasileiro, mas global. Segundo ele, há uma insatisfação disseminada em diferentes democracias, com eleitores exigindo respostas rápidas em economias complexas.
Daoud encerrou destacando que o Brasil tem dimensão econômica e estratégica para avançar, mas depende de lideranças capazes de compreender esse potencial. Em um cenário marcado por disputa entre potências, reorganização do comércio e pressão fiscal, o desafio brasileiro é transformar relevância em estratégia e estabilidade.














