Durante anos, o Brasil ocupou uma posição curiosa no imaginário do investidor estrangeiro: grande demais para ser ignorado, complexo demais para ser amado. Um país frequentemente apresentado em roadshows como “a próxima oportunidade”, mas que, na prática, vivia aprisionado entre promessas estruturais e ruídos crônicos. Agora, algo começa a mudar. Não necessariamente porque o Brasil tenha resolvido seus velhos problemas, seria ingenuidade afirmar isso, mas porque o mundo mudou de forma suficientemente radical para obrigar o capital global a recalcular rotas.
As recentes falas de André Esteves durante a Brazilian Week, em Nova York, apontando a atratividade relativa do Brasil para investidores internacionais, não devem ser lidas apenas como otimismo institucional de um banqueiro brasileiro. Há um contexto mais profundo. O investidor estrangeiro vive um raro momento de desconforto estratégico. Durante mais de uma década, a resposta padrão para alocação global era quase automática: dólar, Treasuries, Big Tech americana e, marginalmente, algum apetite por emergentes. Esse modelo funcionou extraordinariamente bem. Mas fissuras começaram a aparecer.
Os Estados Unidos seguem sendo a maior economia do mundo, mas também se tornaram o epicentro de uma combinação desconfortável de dívida explosiva, polarização política, volatilidade eleitoral e crescente instrumentalização geopolítica da moeda. O dólar continua dominante, mas a percepção de “porto absolutamente seguro” já não é tão incontestável quanto parecia. Não por colapso, isso seria exagero, mas por saturação. O capital global começa a fazer uma pergunta simples: onde mais é possível encontrar retorno real, escala e ativos ainda subprecificados?
E aqui entra a ironia brasileira. Porque, do ponto de vista estrangeiro, o Brasil sempre foi simultaneamente fascinante e exasperante. Fascinante porque reúne aquilo que o mundo moderno mais valoriza: energia, minerais críticos, agricultura competitiva, mercado interno relevante, água, capacidade industrial residual e profundidade financeira razoável. Exasperante porque frequentemente adiciona à equação uma camada de insegurança regulatória, complexidade tributária e imprevisibilidade política que transforma tese de investimento em teste psicológico. Mas talvez justamente aí esteja a oportunidade.
Quando autoridades internacionais como o ministro saudita Khalid Al-Falih, em fóruns recentes em Paris, defendendo que o mundo precisa olhar para ativos reais e geoeconomia produtiva, reforçam a lógica da busca por ativos tangíveis, o Brasil aparece naturalmente no radar. Em um mundo saturado de ativos financeiros caros, países com infraestrutura para construir, energia para expandir, logística para modernizar e recursos naturais para monetizar voltam a parecer interessantes.
A provocação é esta: talvez o Brasil esteja atraente não porque virou Suíça institucional, mas porque o resto do mundo ficou caro, saturado ou geopoliticamente mais complexo. Esse é um ponto pouco discutido no debate doméstico.
O investidor estrangeiro não compara o Brasil com um ideal teórico de perfeição escandinava. Ele compara o Brasil com alternativas reais. E essas alternativas hoje incluem uma Europa anêmica, uma China em desaceleração estrutural e com crescente opacidade política, e os Estados Unidos com valuations historicamente esticados e incerteza fiscal relevante.
Sob esse prisma, o Brasil parece menos um problema e mais um desconto. Mas há um erro clássico que o país costuma cometer: confundir interesse exploratório com decisão de capital. O estrangeiro visita, elogia, participa de painéis, aperta mãos, faz networking e pede reuniões. Isso não significa cheque assinado.
Capital institucional internacional não investe em narrativa; investe em previsibilidade. Se o Brasil quiser transformar curiosidade em fluxo estrutural, precisará oferecer algo mais robusto do que entusiasmo diplomático e slogans sobre potencial. O investidor quer saber regras tributárias de longo prazo, segurança contratual, estabilidade regulatória, ambiente pró-negócio minimamente coerente e clareza fiscal. Sem isso, o país continuará sendo uma excelente apresentação em PowerPoint, e uma decisão difícil no comitê de investimento.
Há ainda um segundo ponto, mais sofisticado. O investidor estrangeiro de 2026 não busca apenas retorno financeiro. Busca também opcionalidade estratégica. E o Brasil pode oferecer exatamente isso. Energia renovável, infraestrutura, agribusiness premium, data centers, logística, minerais críticos, crédito estruturado, consolidação setorial. Não se trata apenas de comprar “Brasil”; trata-se de comprar exposição a temas globais via Brasil.
Esse reposicionamento é poderoso. Mas exige maturidade. Porque oportunidade percebida não dura indefinidamente. Se o país insistir na velha combinação de improviso fiscal, ruído institucional e hostilidade cíclica ao capital privado, a janela fecha rapidamente.
O capital internacional não é ideológico. Ele é pragmático. Vai aonde encontra retorno ajustado a risco. A pergunta correta, portanto, não é se o mundo voltou a olhar para o Brasil. A pergunta correta é mais desconfortável: desta vez, o Brasil quer realmente ser investível ou apenas parecer interessante durante a conferência?
*Coluna escrita por Fabio Ongaro, economista, empresário italiano no Brasil e CEO da Energy Group
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