A indústria automotiva está entrando numa era em que desempenho tende a se democratizar. A eletrificação, o avanço de software embarcado e a nova engenharia vinda da Ásia prometem multiplicar carros extremamente rápidos, sofisticados e tecnologicamente impressionantes.
Em poucos anos, talvez seja possível encontrar superesportivos com acelerações absurdas, vetorização de torque impecável e dinâmicas refinadas vindos de fabricantes hoje improváveis. Isso tende a comprimir um dos pilares tradicionais do prestígio automotivo: a exclusividade técnica.
Quando muitos podem entregar potência extraordinária, ser extraordinário deixa de ser tão raro. Mas essa transformação expõe uma distinção muitas vezes negligenciada: nem toda máquina excepcional se transforma em mito. E o mercado, fascinado por tecnologia, às vezes esquece disso. Muitos novos competidores talvez entreguem 110% da tecnologia, 65% do status e custem um terço. Essa arbitragem é real e força as marcas tradicionais a correrem.
Há automóveis que conquistaram um lugar que não se explica apenas por números. Não são necessariamente os mais rápidos, nem os mais confortáveis, nem os mais eficientes. Ainda assim, tornaram-se símbolos culturais. O caso mais emblemático talvez seja o de certos modelos cuja força reside na arte de mudar não mudando. O exemplo clássico é a Porsche 911, cuja permanência não é imobilismo, mas disciplina industrial. Evolui profundamente sem romper consigo mesma.
Em uma época obcecada pela ruptura permanente, essa coerência é raríssima. É quase uma forma de resistência estética. O mito não nasce apenas do desempenho, nasce da continuidade. E talvez seja por isso que a eletrificação, ao invés de reduzir o valor desses poucos ícones, possa até ampliá-lo. Porque quanto mais abundantes se tornarem máquinas extraordinárias, mais singular parecerá aquilo que continua irrepetível.
Nem toda máquina vira mito
Essa lógica ajuda a entender um fenômeno curioso no universo dos utilitários esportivos. Há um modelo que talvez seja o equivalente mais próximo dessa condição entre SUVs: o Mercedes-Benz G-Class. Não é o mais veloz, nem o mais confortável, nem o mais racional. Ainda assim, tornou-se um ícone instantaneamente reconhecível.
Sua silhueta praticamente não mudou em décadas. Sua origem militar virou parte do fascínio. Até atributos que em outros carros seriam defeitos transformaram-se em identidade. Isso revela algo maior: mercados não precificam apenas eficiência, em certos momentos, precificam mitos.
E essa distinção pode ser decisiva na nova era. Algumas marcas premium talvez sofram justamente por estarem no meio do caminho: caras demais para competir com os novos entrantes e não singulares o suficiente para serem irrepetíveis. Porque potência se copia. Software se replica. Um arquétipo, não necessariamente.
No fundo, a próxima década do automóvel talvez não seja apenas uma disputa entre baterias, software e plataformas. Será uma disputa entre máquinas e símbolos. Entre aquilo que pode ser copiado e aquilo que, quando copiado, vira caricatura.
É possível que novos fabricantes consigam reproduzir, ou superar, soluções técnicas hoje associadas a nomes lendários. Mas isso não significa que conseguirão criar mitos na mesma proporção. Porque mito nasce de narrativa, continuidade e tensão entre tradição e reinvenção. Isso não se industrializa facilmente. E essa provocação é a central: a eletrificação pode commoditizar parte do universo dos supercarros, e pode também elevar o valor simbólico dos poucos ícones cuja essência não depende apenas de performance. O futuro certamente produzirá máquinas extraordinárias. Ainda não sabemos se produzirá novos mitos.
*Coluna escrita por Fabio Ongaro, economista, empresário italiano no Brasil e CEO da Energy Group
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