No chão do Padrão dos Descobrimentos, em Lisboa, um mapa-múndi de pedra marca os portos onde as caravelas portuguesas chegaram. Entre milhares de localidades do planeta, apenas duas cidades brasileiras receberam essa honra: Porto Seguro, na Bahia, e Cananéia, no extremo sul paulista, com a inscrição Cananea, 1502.
Por que Cananéia disputa o posto de cidade mais antiga do Brasil
A história começa em 12 de agosto de 1531, quando o navegador Martim Afonso de Sousa aportou na região e fincou um marco de pedra na Ilha do Cardoso. Foram cinco meses antes da fundação oficial de São Vicente, em janeiro de 1532. O marco original está hoje guardado no Museu Imperial, no Rio de Janeiro.
Conforme a Plataforma de Turismo do Governo do Estado de São Paulo, pesquisadores reconhecem que já havia povoamento europeu na região no fim do século XV e começo do XVI, ligado ao misterioso Cosme Fernandes, o Bacharel, degredado português que vivia entre os indígenas Carijós. A diferença para São Vicente é técnica: faltam documentos que comprovem o status de vila organizada na época, e por isso a vizinha leva o título oficial de cidade mais antiga.

Três camadas de proteção internacional reconhecidas pela ONU
O município de cerca de 12 mil habitantes ostenta um conjunto de reconhecimentos ambientais que poucos lugares do mundo conseguem reunir. Em 1999, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) inscreveu Cananéia como parte do Sítio das Reservas da Mata Atlântica do Sudeste, uma das maiores áreas contínuas de floresta atlântica preservada do Brasil.
O território é também Zona Núcleo de Reserva da Biosfera, ratificada em 2005 pela mesma agência da ONU. A última camada veio em 2017, quando a Área de Proteção Ambiental Cananéia-Iguape-Peruíbe entrou na lista mundial Ramsar de zonas úmidas de importância internacional. O complexo estuarino é apontado pela União Internacional de Conservação da Natureza como um dos maiores do mundo em produtividade primária, ou seja, um berçário marinho de escala global.

Ostras premiadas pela ONU e o roteiro ecológico número 1
O reconhecimento mais lembrado vem da imprensa internacional. A revista americana Condé Nast Traveler apontou Cananéia como o melhor roteiro ecológico do mundo, segundo registro oficial do Governo paulista. O título reflete a combinação rara de Mata Atlântica preservada, ilhas selvagens e centro histórico tombado, no caso pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat) desde 1969.
Há também um prêmio internacional pouco conhecido fora do Vale do Ribeira. A Cooperativa dos Produtores de Ostra de Cananéia (Cooperostra), formada por moradores do Quilombo do Mandira, recebeu o Prêmio Iniciativa Equatorial da ONU durante a Cúpula Mundial para o Desenvolvimento Sustentável de Joanesburgo, em 2002. A premiação reconheceu o cultivo sustentável de ostras feito pela comunidade quilombola, que hoje fornece o molusco considerado um dos melhores do Brasil aos restaurantes do município.
O que ver e provar entre ilhas tombadas e ostras quilombolas
O destino une centro histórico colonial, ilhas selvagens e gastronomia caiçara em distâncias curtas. Os principais atrativos da cidade reúnem:
- Parque Estadual da Ilha do Cardoso: 22 mil hectares de Mata Atlântica preservada criados em 1962, com trilhas, cachoeiras e praias acessíveis apenas por barco como a Pereirinha e a do Marujá.
- Igreja de São João Batista: erguida em 1577 sob comando do padre jesuíta Leonardo Nunes, com paredes de calcário de conchas e óleo de baleia, frestas laterais para defesa contra piratas e formato atual do século XVIII.
- Museu Municipal Victor Sadowski: na Rua Tristão Lobo, abriga o tubarão-branco taxidermizado de 5,5 metros e 3,5 toneladas, segundo maior já capturado, pescado em 1992 a 27 km da costa.
- Baía dos Golfinhos: passeio de escuna pelo estuário entre Ilha Comprida e Ilha do Cardoso, com avistamento quase garantido de botos-cinza.
- Reserva Extrativista do Mandira: comunidade quilombola que cultiva as ostras premiadas pela ONU, com cachoeira, trilhas e restaurantes simples no manguezal.
- Caminho de Peabiru: rota indígena que ligava São Vicente ao Império Inca no Peru, com Cananéia como um dos pontos-marcos do trajeto.
A culinária do Vale do Ribeira gira em torno do mar e da pesca artesanal. Os pratos mais procurados oferecem:
- Ostras frescas do Mandira: servidas in natura ou gratinadas direto dos viveiros do mangue, em comunidade certificada pela ONU em 2002.
- Caldeirada caiçara: peixes frescos cozidos com leite de coco, batata e legumes, prato símbolo da culinária local.
- Pastel de ostra: frito na hora com recheio generoso, vendido em bares de comunidade no manguezal.
- Farofa de ostra: acompanhamento típico que entra em quase todos os pratos tradicionais cananeenses.
Quer o melhor roteiro em Cananéia (SP), um paraíso do litoral sul de São Paulo? Vai curtir esse vídeo:
Quando o clima favorece cada estação em Cananéia
O município está entre as áreas mais chuvosas de São Paulo, com média mensal de cerca de 315 mm em fevereiro, segundo dados climatológicos. O verão concentra a alta temporada, mas o inverno seco é a melhor janela para observação de fauna e trilhas. Veja a seguir o que aproveitar em cada época na cidade:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar até Cananéia
O acesso principal partindo da capital paulista é feito pela Rodovia Régis Bittencourt (BR-116) até a saída 464, com continuação pela SP-226 até o município. O trajeto tem cerca de 270 km e leva entre 3h30 e 4 horas de carro. De Curitiba, a viagem é de aproximadamente 300 km.
Não há aeroporto local, e dentro da cidade os deslocamentos para ilhas e praias são feitos exclusivamente de barco a partir do píer central, na Avenida Beira Mar. Os passeios para a Ilha do Cardoso, ponto de partida da história cananeense, partem do mesmo trapiche.
Vale a pena conhecer a cidade que aparece em Lisboa
Cananéia é o tipo de destino que devolve o tempo a quem chega. Poucos lugares no Brasil reúnem 495 anos de história documentada, três selos da UNESCO, ostras premiadas pela ONU e golfinhos que aparecem em frente ao píer durante a caminhada da manhã.
Você precisa caminhar pelo centro histórico cananeense e parar em frente à Igreja de São João Batista, sentir o peso de pisar na primeira povoação do litoral paulista com vista para um mar de manguezais.

