Antes de São Paulo virar metrópole, antes de o ouro de Minas Gerais ser descoberto, já existia Iguape. Erguida em 3 de dezembro de 1538 no estuário do rio Ribeira, a cidade do litoral sul paulista foi fundada por um aventureiro castelhano e abrigou em 1635 a primeira casa de fundição de ouro de todo o Brasil.
A vila castelhana que virou paulista
A região onde hoje está Iguape ficava sobre a linha do Tratado de Tordesilhas, em terra disputada por Portugal e Espanha. Segundo o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), a fundação oficial é atribuída ao espanhol Ruy Garcia Moschera, que vivia na região desde fins do século XV em companhia de outros castelhanos refugiados. A primeira igreja do povoado, dedicada a Nossa Senhora das Neves, foi erguida em 1537.
A data de fundação foi cravada apenas em 1938, quando o prefeito Manoel Honório Fortes incumbiu uma comissão de historiadores paulistas, presidida por Afonso d’Escragnolle Taunay, para estabelecer o marco oficial. Eles escolheram 3 de dezembro de 1538, baseados em documentos que registram a separação administrativa entre Iguape e Cananeia. O nome vem do tupi e significa “no enseio do rio”.

Por que conhecer a primeira Casa da Moeda do país?
Em 1635, a Coroa Portuguesa instalou em Iguape a Casa da Oficina Real da Fundição do Ouro, considerada por historiadores e arqueólogos a primeira casa de fundição de ouro do Brasil. Todo o metal extraído no Vale do Ribeira passava por ali para ser pesado, fundido em barras e taxado pelo quinto real, o tributo de 20% devido à Coroa.
O prédio operou até cerca de 1750, quando a produção aurífera começou a declinar. Pesquisas arqueológicas conduzidas pela Universidade de São Paulo identificaram vestígios de fornos, escórias e ferramentas no terreno, confirmando a função original da construção. Desde 1970, o edifício abriga o Museu Histórico e Arqueológico de Iguape, que preserva a memória do ciclo do ouro paulista no mesmo lugar onde tudo começou.

O maior conjunto de casario colonial de São Paulo
O centro histórico de Iguape foi tombado pelo IPHAN em 2009 como Paisagem Cultural, sendo o primeiro conjunto urbano do estado de São Paulo a receber o título. A cidade preserva o maior acervo de casario colonial do estado, com mais de 60 prédios em estilo português distribuídos em vielas estreitas de paralelepípedos.
As edificações remontam aos ciclos do ouro e do arroz, entre os séculos XVI e XIX, com técnicas como a taipa francesa e a de pilão. Segundo a Secretaria de Turismo de São Paulo, a cidade ostenta o título de “Princesa do Litoral” e possui o maior território em área territorial entre os municípios paulistas, com quase 2.000 km².
O que fazer em Iguape
O roteiro mistura história, religiosidade e natureza intocada. Vale separar pelo menos dois dias para combinar a caminhada pelo centro tombado com uma esticada à Juréia ou à Ilha Comprida, vizinha do outro lado do Mar Pequeno:
- Centro Histórico: maior conjunto de casario colonial de São Paulo, com mais de 60 prédios tombados, ruelas de paralelepípedos e fachadas dos séculos XVII a XIX.
- Basílica do Senhor Bom Jesus de Iguape: construída em 1787 com pedra e argamassa de óleo de baleia, abriga a imagem milagrosa encontrada por dois indígenas em 1647.
- Museu Histórico e Arqueológico: instalado no prédio original da primeira Casa de Fundição de Ouro do Brasil, com acervo do ciclo do ouro paulista.
- Estação Ecológica Juréia-Itatins: 84.425 hectares de Mata Atlântica preservada, criada em 1986, com trilhas, costões e a única praia urbana da cidade.
- Morro do Espia: trilha de 2 km com vista panorâmica do encontro do rio Ribeira com o Mar Pequeno e da vizinha Ilha Comprida.
- Canal do Valo Grande: obra hídrica concluída em 1855 com permissão de Dom Pedro II, que conecta o rio Ribeira ao mar e mudou a geografia da cidade.
- Sítio Arqueológico Caverna do Ódio: sambaqui pré-colonial com vestígios de ocupação humana de mais de 5 mil anos, próximo à ponte para Ilha Comprida.
A culinária local mistura raízes caiçaras, indígenas e portuguesas, herdadas do ciclo do arroz e da pesca artesanal:
- Arroz com camarão à moda iguapense: receita tradicional preparada com camarão da região e tempero caiçara.
- Manjuba frita: peixe típico do estuário do Ribeira, servido em restaurantes do centro histórico.
- Doce de banana: feito com a fruta cultivada no Vale do Ribeira, vendido em tabuleiros da Praça Matriz.
- Caldo de mariscos: combinação de frutos do mar do Mar Pequeno servida em barzinhos da orla.
Quem deseja vivenciar o turismo religioso e histórico, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal São Paulo Turismo, que conta com mais de 80 visualizações, onde é apresentada a fé no Bom Jesus de Iguape e as paisagens tombadas do Morro do Espia em Iguape:
Quando visitar a Princesa do Litoral?
O clima é subtropical úmido, com pouca diferença térmica ao longo do ano e chuvas distribuídas entre os meses. A média anual fica em torno de 21,6°C. Veja como o calendário se distribui:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
O ápice cultural acontece no início de agosto, durante a Festa do Senhor Bom Jesus de Iguape, uma das mais antigas tradições religiosas do Brasil. O evento atrai cerca de 200 mil romeiros à pequena cidade de 29 mil habitantes. Em fevereiro, o Carnaval de Rua é considerado um dos melhores de São Paulo, com cinco dias de blocos e 200 mil foliões.
Como chegar a Iguape
Iguape fica a 201,6 km da capital paulista, no extremo sul do litoral de São Paulo. O acesso mais comum é pela Rodovia Régis Bittencourt (BR-116), depois pela SP-222 (Rodovia Prefeito Casimiro Teixeira), que conduz direto ao centro histórico. O trajeto de carro leva entre 2h30 e 3 horas, dependendo do trânsito.
Para quem prefere transporte público, há linhas regulares de ônibus saindo do Terminal Rodoviário do Tietê. Quem chega de Curitiba pode pegar a BR-116 sentido São Paulo e desviar pela SP-222. A vizinha Ilha Comprida é acessada pela Ponte Laércio Ribeiro, sobre o Mar Pequeno, que liga as duas cidades em poucos minutos.
Conheça a cidade onde o Brasil cunhou seu primeiro ouro
Iguape reúne em poucos quarteirões um capítulo esquecido da história do Brasil: a primeira casa de fundição de ouro do país, o maior conjunto de casario colonial de São Paulo e cinco séculos de tradição religiosa preservada na Basílica do Bom Jesus. A cidade fundada por um espanhol continua firme à beira do Mar Pequeno, cercada pela maior faixa contínua de Mata Atlântica do litoral paulista.
Você precisa atravessar a ponte sobre o Mar Pequeno, subir o Morro do Espia e entender por que essa pequena cidade do Vale do Ribeira já foi tão importante quanto Salvador e Rio de Janeiro.














