Um levantamento realizado pela EloGroup, em parceria com ApexBrasil, ABVCAP e Global Corporate Venturing (GCV), aponta que o Corporate Venture Capital (CVC) manteve um papel relevante no ecossistema de inovação brasileiro, mesmo em um cenário de desaceleração do mercado de venture capital.
Entre julho de 2024 e junho de 2025, foram mapeadas 66 rodadas de investimento em startups com participação de CVCs brasileiros, que movimentaram cerca de US$ 700 milhões em valores divulgados.
Embora o número de rodadas tenha sido inferior às 135 operações registradas nos 12 meses anteriores, o estudo indica que a atuação corporativa ganhou maior protagonismo. No período analisado, 42 veículos de CVC brasileiros estiveram ativos, e 30 das 66 rodadas (45%) foram lideradas por corporações nacionais.
Considerando apenas as 24 rodadas lideradas por CVCs brasileiros com valores divulgados, os aportes somaram cerca de US$ 358 milhões.
Segundo Jaime Frenkel, sócio da EloGroup e um dos responsáveis pelo estudo, o movimento reflete uma consolidação do modelo no país.
“Esse movimento consolida o amadurecimento do setor de CVC no Brasil com uma forte separação entre o ‘joio e o trigo’. Enquanto diversas empresas descontinuaram os seus braços de CVC, aquelas que o utilizaram como uma ferramenta estratégica de longo prazo estão colhendo frutos valiosos”, afirma.
Finanças e tecnologia concentram investimentos
O levantamento mostra que as teses de investimento das corporações continuam concentradas em alguns setores específicos.
Mais da metade das rodadas foi direcionada para startups dos segmentos financeiro (22 rodadas) e tecnologia (11 rodadas). Na sequência aparece o setor de saúde, com 9 rodadas de investimento.
O estudo também identifica uma forte concentração intra-setorial, principalmente no setor financeiro, onde a maior parte dos aportes foi direcionada para fintechs.
Comportamento semelhante é observado nos setores de saúde e mídia e telecomunicações, em que as corporações tendem a investir em startups de seus próprios segmentos ou em tecnologias diretamente relacionadas ao seu negócio. Já empresas de indústria e energia apresentaram maior diversificação nas teses de investimento.
Para Priscila Rodrigues, presidente da ABVCAP, os dados indicam um avanço na maturidade do Corporate Venture Capital no país.
“Os dados indicam um avanço relevante na maturidade do CVC no Brasil. Mais do que o volume de transações, observa-se um papel mais ativo das corporações nacionais, que ampliaram sua participação e passaram a atuar de forma mais recorrente em rodadas nas quais estão presentes”, afirma.
Aportes maiores e foco em startups mais maduras
O estudo também aponta uma mudança no perfil dos investimentos realizados pelas corporações.
Houve aumento no tamanho médio dos aportes em todos os estágios de maturidade das startups, com crescimento na participação de rodadas Series B ou superiores (Series B+), que passaram a representar 27% do total.
Nessas rodadas, o valor médio alcançou US$ 34,6 milhões, indicando que empresas brasileiras têm participado de negócios maiores e apoiado startups em estágios mais avançados de crescimento.
Segundo o estudo, esse movimento também está associado à busca por maior sinergia estratégica entre corporações e startups, já que empresas mais maduras tendem a ter maior capacidade de atuar como parceiras de negócios.
“O ciclo 2024/2025 marcou a transição para um mercado menos eufórico e mais estratégico, com foco em ativos com tração, maturidade e risco reduzido. O CVC deixou de ser um experimento e passou a se consolidar como uma alavanca estruturada de crescimento, aprendizado e acesso a novos mercados no longo prazo”, afirma Jaime Frenkel.
Apesar desse movimento, os estágios iniciais continuam relevantes no ecossistema de inovação. As rodadas Seed representaram 40% dos investimentos, e o conjunto de aportes em estágios iniciais — de Pre-seed a Series A — manteve participação próxima de 52%.
Participação internacional e coinvestimentos
O relatório também destaca a presença de investidores internacionais no ecossistema brasileiro.
Das 66 rodadas mapeadas, 33 (50%) contaram com participação de CVCs de corporações multinacionais, indicando a integração do mercado brasileiro com o ambiente global de inovação.
No campo da colaboração doméstica, o estudo identificou 12 rodadas com participação conjunta de mais de um CVC brasileiro, sugerindo que ainda há espaço para maior cooperação entre os veículos corporativos nacionais.
No panorama geral do venture capital no Brasil, considerando também fundos independentes, o país registrou 270 rodadas de investimento em startups entre julho de 2024 e junho de 2025, que somaram mais de US$ 2 bilhões captados.













