No alto da Serra Catarinense, a 200 quilômetros de Florianópolis, existe um pequeno vilarejo de apenas 2.656 habitantes onde os termômetros marcam temperaturas negativas quase cinquenta vezes por ano. Urupema é oficialmente a Capital Nacional do Frio, e quem chega lá entende rapidamente por que esse título se transformou em lei federal.
De ponto de parada de tropeiros ao título de Capital Nacional do Frio
Urupema começou sua história como um distrito de São Joaquim e só conseguiu sua emancipação política no ano de 1988. O nome tem origem no tupi antigo e significa “peneira”, uma referência ao utensílio que os primeiros moradores usavam em suas tarefas diárias. Bem antes de atrair turistas, o que chamava as famílias para a região eram as araucárias. O pinhão servia como a base da alimentação durante os meses mais frios, e essa forte ligação com a floresta ainda marca a identidade do lugar.
O reconhecimento oficial veio em dezembro de 2021, quando a Lei 14.255 concedeu ao município o título de Capital Nacional do Frio. A estação meteorológica da Epagri, que foi instalada em 2010, só fez confirmar o que os moradores já repetiam havia décadas: a cidade é a que registra as menores temperaturas mínimas absolutas de todo o país, com um recorde de -9,4°C alcançado em julho de 2019.

Como é viver na cidade mais fria do Brasil?
Por lá, o fogão a lenha não é um simples item de decoração, mas uma necessidade real. Nos dias de frio mais intenso, a água chega a congelar dentro dos canos, e são as serpentinas de cobre acopladas a esses fogões que garantem um banho quente. A rotina se adapta ao que o termômetro mostra: os moradores protegem suas hortas com coberturas de plástico e aprendem desde cedo a dirigir com muito cuidado nas manhãs em que a pista está congelada.
A qualidade de vida, para uma cidade tão pequena, é algo que surpreende. O saneamento básico chega a quase 100% das casas, mesmo na área rural. Esse trabalho fez com que Urupema recebesse um diploma de honra ao mérito da Organização das Nações Unidas (ONU). A agricultura orgânica só faz crescer a cada ano, e o Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC) mantém um campus na cidade que é voltado para os estudos de viticultura e agropecuária.

O que visitar na serra além da neve e do gelo?
A Capital Nacional do Frio oferece atrações que funcionam em todas as estações do ano. Muitas delas estão a menos de 10 quilômetros do centro e podem ser conhecidas com a ajuda dos condutores ambientais que são formados pelo IFSC.
- Cascata que Congela: queda de 13 m a 1.580 m de altitude, a 7 km do centro. Nos dias mais gelados, a água vira uma escultura de cristais de gelo a céu aberto.
- Morro das Antenas: mirante a 1.726 m com vista panorâmica da serra. No inverno, o sincelo transforma a vegetação em esculturas brancas.
- Praça Manoel Pinto de Arruda: coração da cidade, com lago das trutas, araucárias e o famoso termômetro gigante onde turistas registram as marcas negativas.
- Igreja Matriz Santa Ana: construção simples em frente à praça, com a Gruta Nossa Senhora de Lourdes. O nome original da cidade era Vila de Santana.
- Observatório de Trutas do Rio Caronas: trutas arco-íris nadam soltas no rio que corta o centro, algo raro no mundo. A cidade carrega o título de Capital Catarinense da Truta.
Quem quer conhecer a vida na capital nacional do frio, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Diogo Elzinga, que conta com mais de 2,2 milhões de inscritos, onde Diogo explora as curiosidades e o clima extremo de Urupema, em Santa Catarina:
A revoada de 22 mil papagaios que viajam 800 quilômetros até a serra
Entre os meses de março e julho, o céu de Urupema se enche de cor e de um som muito característico. Cerca de 22 mil papagaios-charão migram desde o Rio Grande do Sul para se alimentar dos pinhões que as araucárias da serra catarinense produzem. Essa é a maior concentração populacional de que se tem notícia de uma espécie de papagaio no Brasil, e o charão é o único papagaio migratório que existe no país.
Esse fenômeno impressionante é acompanhado de perto pelo Projeto Charão, que foi criado em 1991 por pesquisadores da Universidade de Passo Fundo. Em 2018, o projeto deu origem à RPPN Papagaios de Altitude, em Urupema, que conta com 46 hectares dedicados exclusivamente à conservação. Todos os anos, o Festival do Papagaio-Charão reúne observadores de aves que vêm de todo o Brasil e também do exterior. Os melhores momentos para ver a revoada acontecem por volta das 7 da manhã e das 5 da tarde, que é quando os bandos se deslocam entre os locais onde dormem e onde se alimentam.
Como é o clima de Urupema ao longo do ano?
A temperatura média durante o ano fica na casa dos 13°C a 14°C. O verão é uma estação que dificilmente vê os termômetros passarem dos 25°C, enquanto o inverno é capaz de registrar mínimas que ficam abaixo dos -5°C. A neve costuma cair, em média, umas cinco vezes por ano.
| Estação | Meses | Temperatura | Chuva | O que fazer |
|---|---|---|---|---|
| Verão | Dez-Fev | 10-25°C | Alta | Cachoeiras e trilhas pela manhã |
| Outono | Mar-Mai | 5-18°C | Média | Revoada dos papagaios-charão |
| Inverno | Jun-Ago | -5 a 14°C | Baixa | Cascata congelada e neve |
| Primavera | Set-Nov | 6-20°C | Média | Florada da maçã e vinícolas |
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo e registros da Epagri. Condições podem variar conforme a altitude do ponto visitado.
As estradas que levam até o alto da serra
Urupema está a mais ou menos 200 quilômetros de Florianópolis. O caminho é feito pela BR-282 até a cidade de Lages e, depois, pela SC-112. As estradas são todas asfaltadas. De carro, a viagem leva em torno de 3 horas e meia. Para quem já está em Lages, a distância é de apenas 52 quilômetros. O aeroporto com voos regulares mais próximo é o Regional do Planalto Serrano, que fica em Correia Pinto, a 78 quilômetros de distância, e que recebe voos da Azul partindo de Campinas.
Uma viagem até a serra para sentir o frio que virou lei
Urupema é aquele tipo de lugar que mexe com os parâmetros de quem o visita. Um pequeno vilarejo onde as trutas nadam tranquilamente no rio que corta o centro, onde os papagaios colorem o céu durante o outono e onde uma cachoeira se transforma em uma escultura de gelo sem que haja qualquer intervenção humana. Tudo isso a pouco mais de três horas de distância da capital de Santa Catarina.

