Imagine ser o primeiro piloto da história a pousar um avião comercial de 275 toneladas em uma pista de gelo onde não existe radar, não existe luz de pista e não existe nenhum equipamento de apoio em solo. Em novembro de 2021, a companhia aérea portuguesa Hi Fly fez exatamente isso na Antártica, sobre uma superfície de gelo azul compactado há milênios, a 4.630 km do aeroporto de origem.
Qual avião comercial foi usado na missão histórica?
A aeronave escolhida foi o Airbus A340-313HGW, de matrícula 9H-SOL, com peso máximo de decolagem de 275 toneladas e quatro motores. A configuração quadrimotor foi deliberada: em operações polares remotas, a redundância de potência não é luxo, é requisito.
Sob o comando do Capitão Carlos Mirpuri, vice-presidente da Hi Fly, a aeronave partiu de Cidade do Cabo, na África do Sul, e percorreu 4.630 km em aproximadamente 5 horas e 10 minutos até a pista Wolf’s Fang Runway. A bordo seguiam 23 pessoas, entre turistas, cientistas e carga essencial para o acampamento de luxo operado pela White Desert Antarctica.

O que é a pista de gelo azul Wolf’s Fang e por que ela é tão incomum?
A Wolf’s Fang Runway é uma pista natural de gelo glacial azul, denominação técnica para o gelo antigo compactado ao longo de milênios. Com o tempo, esse gelo expele todo o ar de seu interior e se torna extremamente denso e resistente, quase translúcido.
A pista tem 3.000 metros de extensão sobre uma camada de 1,4 km de gelo sólido. Antes de cada operação, equipamentos especiais esculpem ranhuras longitudinais na superfície para aumentar o coeficiente de atrito. Quanto mais baixa for a temperatura, mais eficaz será a aderência.

Quais foram os maiores riscos do pouso do avião comercial na Antártica?
O gelo azul, apesar de extremamente duro, oferece coeficiente de atrito muito inferior ao asfalto. Qualquer variação de temperatura pode alterar as condições de frenagem em segundos. A margem de erro em uma aeronave de 275 toneladas é praticamente zero.
O aeródromo apresentava uma série de limitações que tornavam a operação ainda mais exigente. Veja o que a tripulação enfrentou sem qualquer apoio convencional de infraestrutura:
- Ausência total de auxílios de navegação eletrônica e luzes de pista, exigindo pouso inteiramente por referências visuais.
- Nenhum equipamento de apoio em solo disponível, como geradores externos ou unidades de partida a ar.
- Risco constante de whiteout, fenômeno em que a reflexão da neve elimina o contraste visual e desorienta o piloto.
- Condições de vento variáveis típicas da Antártica, que exigem avaliação contínua até o momento do toque da aeronave.
Para entender a dimensão do desafio, o canal oficial da Hi Fly Airline, com 8,8 mil inscritos, registrou cada etapa da operação em vídeo. As imagens acumulam mais de 1,3 milhão de visualizações e mostram os momentos finais da aproximação e o pouso na pista 17:
Como foi o planejamento para pousar no continente mais inóspito do mundo?
A permanência em solo antártico durou apenas 3 horas antes do retorno à África do Sul. Esse intervalo mínimo não foi por falta de interesse, foi exigência operacional: cada minuto a mais representa variáveis meteorológicas adicionais em um ambiente onde o tempo pode mudar com rapidez extrema.
Segundo o comunicado oficial da Hi Fly, o Capitão Mirpuri afirmou que “pousar na Antártica nunca é rotina, cada voo exige planejamento criterioso, precisão absoluta e respeito ao ambiente”. A avaliação meteorológica foi descrita como impecável, com céus claros confirmados antes da aproximação final.
Os números que explicam por que essa operação polar foi tão complexa
Por trás de uma operação como essa, cada número carrega o peso de uma decisão. Da distância percorrida ao tempo mínimo em solo, tudo foi calculado para a aeronave chegar, pousar e voltar com segurança absoluta. Os principais dados da missão foram:
- Data do voo: 2 de novembro de 2021
- Aeronave: Airbus A340-313HGW, matrícula 9H-SOL
- Peso máximo de decolagem: 275 toneladas
- Distância percorrida: 4.630 km (2.500 milhas náuticas)
- Duração do voo: 5 horas e 10 minutos
- Pessoas a bordo: 23
- Permanência em solo: 3 horas
- Extensão da pista: 3.000 metros de gelo azul

O que veio depois do voo histórico do avião comercial na Antártica?
O pouso de 2021 não foi um feito isolado. Desde então, a Hi Fly completou cinco temporadas consecutivas de operações na Antártica, celebradas em novembro de 2025. A rota polar deixou de ser experimento e virou operação consolidada.
Em dezembro de 2025, a companhia acrescentou um marco: o primeiro pouso de um Airbus A330 na mesma pista Wolf’s Fang, ampliando as possibilidades logísticas da rota com aeronaves bimotor. O que começou com um avião comercial pousando no gelo azul pela primeira vez agora é referência global em aviação polar, provando que a Antártica pode ser destino regular.

