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Aena: uma estatal que age como empresa privada

Aluizio Falcão FilhoPor Aluizio Falcão Filho
01/04/2026

Na maioria dos casos, a iniciativa privada oferece uma melhor gestão que o Estado. Mas os benefícios que o processo de privatização pode trazer à sociedade somente são exponenciais quando o concessionário é competente e tem apetite pelo crescimento. No caso da Aena, que nesta semana venceu a concorrência para gerir o aeroporto Tom Jobim/Galeão, estamos diante de um perfil inusitado. A empresa vem mostrando resultados importantes na gestão de terminais aéreos, especialmente pelo trabalho feito em Congonhas, na capital paulista. Mas estamos falando de uma empresa que, na Espanha, onde fica sua matriz, é controlada pelo governo, que detém 51% do capital da companhia.

Mas como uma estatal pode ser tão agressiva e competente quanto uma empresa privada?

A mentalidade empresarial privada na gestão da Aena nasceu do ambiente favorável ao liberalismo dos anos 1980 e 1990, quando diretivas da União Europeia forçaram a Espanha a abandonar monopólios estatais ineficientes e modernizar seu sistema aeroportuário para competir no continente, absorvendo o New Public Management (nova gestão pública, em inglês) — modelo surgido como resposta à crise fiscal e à burocracia estatal rígida, impulsionado por governos liberais como o de Margareth Thatcher. Foi nessa época que a primeira-ministra britânica cunhou práticas empresariais no setor público através da gestão por resultados, descentralização e indicadores de performance mensuráveis.

Criada em 1991 como estatal, a Aena adotou esse DNA gerencial, reforçando-o após a crise econômica de 2008. No novo modelo, a empresa ganhou autonomia operacional e recebeu 49% de capital privado, arrecadando €8 bilhões para abater endividamento e impondo metas de rentabilidade e dividendos aos acionistas.

O projeto de expansão de Congonhas empreendido pela companhia tem a ver com este padrão e é impressionante. A empresa está investindo R$ 2 bilhões neste terminal, para triplicar a área construída do aeroporto e dobrar a capacidade operacional, com 19 pontes de embarque, pátio expandido e maior estrutura comercial e de serviços. Cerca de 30% das obras já foram realizadas e a reforma deve ser finalizada em meados de 2028.

No caso do Galeão, no entanto, a aposta é mais arriscada do que a feita em São Paulo. Em editorial publicado ontem, o jornal “O Globo” diz o seguinte: “O terminal tem atraído companhias aéreas e novos voos. A melhora tem sido boa para o Rio e para o país. Mas o ciclo virtuoso depende da manutenção das restrições no Santos Dumont”.

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Aqui está o “x” da questão.

O equilíbrio entre os dois aeroportos cariocas é determinante para que o Galeão volte a operar em seu potencial máximo. O Santos Dumont, pela localização privilegiada, atrai naturalmente a maior parte da demanda doméstica, mas isso pode diminuir o fluxo de passageiros que alimenta voos internacionais e rotas de longo curso no Tom Jobim. Sem que exista uma sintonia de ofertas de voos entre os terminais, qualquer esforço de revitalização do Galeão perderia força.

A manutenção das restrições no Santos Dumont, assim, acaba sendo uma condição para que o investimento da Aena encontre ambiente favorável e gere resultados sustentáveis. Ao mesmo tempo, depender da boa vontade das autoridades para obter resultados positivos não é algo desejável. Por isso, a companhia terá de andar no fio da navalha para fazer uma revitalização de porte na Ilha do Governador.

A Aena se tornou um caso singular no setor de infraestrutura porque, embora seja controlada pelo Estado espanhol, opera com a lógica de uma empresa privada. O resultado é uma estatal que não se comporta como um órgão público tradicional: ela investe com rapidez, assume riscos, busca rentabilidade e trata cada aeroporto como um ativo que precisa gerar valor.

Essa postura explica por que a Aena conseguiu transformar Congonhas em um projeto de expansão robusto e porque decidiu apostar no Galeão, mesmo diante de um cenário um tanto incerto. A empresa não depende de ciclos políticos, não opera sob a lógica da burocracia estatal e não se acomoda em estruturas engessadas. Atua como uma corporação que precisa entregar resultados aos acionistas e, ao mesmo tempo, manter padrões elevados de serviço.

Em um país como o Brasil, no qual a gestão pública costuma ser lenta e fragmentada, a presença de uma estatal com mentalidade privada é um ponto fora da curva. E justamente por isso a Aena tem condições de fazer do aeroporto internacional do Rio um exemplo de recuperação e eficiência, mostrando que governança e profissionalismo podem pesar mais do que a natureza jurídica de uma organização.

*Coluna escrita por Aluizio Falcão Filho, é jornalista, articulista e publisher do portal Money Report. Foi diretor de redação da revista Época e diretor editorial da Editora Globo, com passagens por veículos como Veja, Gazeta Mercantil, Forbes e a vice-presidência no Brasil da agência de publicidade Grey Worldwide

*As opiniões transmitidas pelo colunista são de responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a opinião da BM&C News.

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