Muitas vezes, pessoas que lutam por uma mesma causa discordam de questões pontuais e se tornam oponentes férreos. Um exemplo disso está no filme “A Vida de Brian”, do grupo inglês de comédia Monty Phyton. A narrativa se passa na Judeia, em meio à dominação dos romanos na época de Jesus Cristo. Uma cena mostra militantes de uma organização clandestina, chamada Frente do Povo da Judeia, conversando com o personagem Brian, que deseja entrar para o grupo. Durante a conversa, eles dizem que o ódio aos romanos só é superado pela aversão que têm a respeito de outra organização, a Frente Judaica do Povo.
Esse tipo de racha é muito comum em diversos setores da sociedade, da economia e da política. Hoje mesmo, temos uma situação destas em curso no mundo feminino, em pleno mês no qual se celebram os direitos da mulher.
Como se sabe, a deputada Erika Hilton foi eleita presidente da Comissão das Mulheres na Câmara. De início, esperava-se uma reação forte da direita, uma vez que a congressista é uma mulher trans – o que de fato aconteceu. Mas a gritaria não ficou apenas na chamada bolha bolsonarista: representantes de movimentos feministas também chiaram.
A discussão ideológica ganhou argumentos biológicos, que foram levantados até pelo apresentador Ratinho em seu programa de televisão. A lógica que foi empunhada por Ratinho e muitas feministas (nem todas, diga-se) é a de que, como não tem um útero, Hilton não tem condições de presidir uma comissão voltada para os problemas femininos.
Os defensores de Hilton entraram em campo e refutaram aqueles que criticaram a escolha da deputada para a comissão legislativa. E passaram dizer que as vozes contrárias eram restritas ao “radfem”, ou o feminismo radical. Até recentemente, essa expressão era utilizada amplamente por conservadores, como os americanos Ben Shapiro e Rod Dreher.
Na batalha das redes sociais, houve uma polarização ferrenha, com milhões de postagens debatendo a questão de maneira feroz. Entre os posts, destaca-se um, da própria deputada Erika Hilton: “E não estou nem um pouco preocupada se o esgoto da sociedade não gostou. A opinião de transfóbicos e imbeCIS é a última coisa que me importa”. A deputada faz um trocadilho polêmico ao misturar a palavra “imbecis” e o termo “CIS” (usado para definir pessoas que se identificam o sexo com o qual nasceram, masculino ou feminino).
A transfobia mencionada pela deputada é algo bastante comum na sociedade. Mas muitos críticos à sua escolha para presidir a Comissão das Mulheres não são necessariamente contrários aos direitos das pessoas trans. Colocar feministas radicais e conservadores no mesmo balaio parece ser algo ruim para os objetivos das chamadas causas progressistas.
O episódio expõe tensões reais dentro de um campo que, apesar das diferenças internas, historicamente buscou ampliar direitos e proteger grupos vulneráveis. A disputa em torno da Comissão das Mulheres mostra como certas discussões ainda precisam ser desenvolvidas. Neste cenário, é preciso ter disposição para lidar com desacordos sem transformar cada divergência em hostilidade. O tema é complexo e envolve identidades, trajetórias e experiências que não são equivalentes. Justamente por isso, qualquer avanço depende de algum grau de cuidado mútuo, mesmo quando as posições parecem inconciliáveis. Com um debate alto em octanagem, a transfobia e a misoginia saem ganhando.













