A tentativa do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de formar uma coalizão internacional para patrulhar o Estreito de Ormuz encontrou resistência imediata na Europa. Alemanha, Itália e Grécia confirmaram que não pretendem enviar navios militares à região, considerada uma das rotas mais estratégicas para o abastecimento global de energia.
O pedido ocorre em meio à escalada da guerra envolvendo o Irã, que tem ampliado a volatilidade no mercado de petróleo e elevado o grau de incerteza nos mercados internacionais. O Estreito de Ormuz concentra a passagem de cerca de 20% do petróleo e gás natural comercializados no mundo, tornando-se um ponto sensível para a estabilidade energética e econômica global.
Entre os países que se recusaram a participar de uma eventual coalizão naval liderada pelos EUA estão:
- Alemanha;
- Itália;
- Grécia.
Na Alemanha, o ministro da Defesa, Boris Pistorius, afirmou que o país não participará da operação. A posição reflete a avaliação de que a segurança da rota marítima não é uma responsabilidade direta de Berlim. Na Itália, o chanceler Antonio Tajani defendeu a via diplomática como alternativa para a crise e informou que não há missões navais italianas que possam ser estendidas ao Oriente Médio. O governo da Grécia também declarou que não pretende se envolver em operações militares no estreito.
Entre os principais aliados europeus, o Reino Unido ainda não tomou uma decisão definitiva. O primeiro-ministro Keir Starmer afirmou que mantém diálogo com parceiros internacionais para avaliar possíveis alternativas de segurança. A França, por sua vez, não havia se manifestado oficialmente até a última atualização, embora o presidente Emmanuel Macron já tenha sinalizado que uma eventual missão internacional só deveria ser considerada após a redução dos combates.
Trump isolado: além da Europa
Fora da Europa, outros países também foram citados nas articulações conduzidas por Washington. A Coreia do Sul informou que irá analisar cuidadosamente o pedido, enquanto há expectativa de que o Japão seja formalmente pressionado durante reunião prevista na Casa Branca. A China, grande dependente da rota para o abastecimento energético, indicou que pretende intensificar o diálogo com as partes envolvidas para evitar interrupções no fornecimento.
Trump afirmou ter solicitado a cerca de sete países o envio de navios de guerra para manter aberta a passagem pelo estreito. O objetivo, segundo o presidente americano, é preservar o fluxo de petróleo e conter a alta das cotações internacionais. O líder dos Estados Unidos argumenta que a rota é mais estratégica para países dependentes das importações de energia do que para a própria economia americana.
O cenário se desenvolve em meio a ataques atribuídos ao Irã contra embarcações comerciais, o que tem elevado a percepção de risco e reforçado preocupações sobre possíveis impactos nas cadeias globais de suprimento.
Impactos geopolíticos e econômicos entram no radar do mercado
Para o professor de relações internacionais, Marcus Vinicius de Freitas, o momento internacional revela um processo de isolamento progressivo da liderança americana. Na avaliação do especialista, o uso cada vez mais assertivo do poder presidencial como instrumento de reconfiguração da ordem internacional tem provocado desalinhamentos entre aliados tradicionais e ampliado custos sistêmicos.
“A guerra envolvendo o Irã pode ser interpretada como um conflito de escolha conduzido sob uma lógica unilateral, com efeitos que rapidamente se disseminam em um mundo interdependente. A instabilidade no Estreito de Ormuz, já provoca disrupções relevantes no fluxo energético global, elevando custos e ampliando a incerteza para empresas e governos“, avalia.
O especialista também aponta que a percepção de fragilidade nas garantias de segurança oferecidas pelos Estados Unidos tende a afetar um dos pilares centrais da sua liderança internacional. Países historicamente alinhados passam a questionar não apenas a capacidade, mas também a previsibilidade do compromisso estratégico de Washington em um ambiente de maior tensão geopolítica.
Ao mesmo tempo, Freitas observa que o Irã demonstra compreender a lógica da guerra assimétrica ao atuar em pontos sensíveis do sistema internacional.
“Ao pressionar uma rota vital para o comércio global de energia, o país consegue ampliar custos e expor vulnerabilidades dos adversários, projetando influência além de sua capacidade militar convencional“, explica.
A Europa nessa história
No caso europeu, o professor destaca um dilema estrutural. Economias ainda em processo de recuperação, combinadas a restrições fiscais e pressões sociais internas, reduzem a margem política para assumir novos compromissos estratégicos decorrentes de uma decisão tomada fora do continente. Esse cenário contribui para um desalinhamento crescente dentro do próprio bloco ocidental.
Na avaliação do especialista, a tentativa de transferir aos aliados os custos de um conflito de natureza incerta pode produzir o efeito inverso ao pretendido.
“Em vez de consolidar liderança, tende a acelerar a fragmentação política e estratégica entre as potências ocidentais“, conclui.













