A 85 metros abaixo da superfície da Capadócia, na Turquia, existe uma metrópole inteira escavada em rocha vulcânica. Derinkuyu, conhecida na antiguidade como Elengubu, foi construída em 18 níveis e chegou a abrigar até 20 mil pessoas, junto com seus animais e estoques de alimentos. Ficou esquecida por décadas até que, em 1963, um morador anônimo derrubou uma parede do porão e encontrou um túnel que levava a uma das maiores descobertas arqueológicas do século XX.
Quem escavou uma cidade inteira debaixo da terra?
A autoria exata de Derinkuyu ainda é debatida. Segundo arqueólogos do Departamento de Cultura da Turquia, as primeiras galerias foram escavadas entre os séculos VIII e VII a.C. pelos frígios, um povo indo-europeu que dominou a Anatólia e era conhecido por projetos de construção complexos. Outras teorias apontam para os hititas, que ocuparam a região por volta de 2000 a.C.
A referência escrita mais antiga ao modo de vida subterrâneo na Capadócia aparece na Anábase, de Xenofonte de Atenas, escrita por volta de 370 a.C.. O historiador grego descreve o povo anatólio vivendo em casas escavadas no subsolo, grandes o suficiente para abrigar famílias inteiras, animais domésticos e estoques de comida. Xenofonte menciona até a produção de cerveja de cevada e vinho de boa qualidade nessas habitações. Séculos depois, o geógrafo Estrabão (84 a.C.–17 d.C.) descreveu os poços mais profundos que já havia visto na mesma região.

Como 20 mil pessoas viviam abaixo do solo?
Derinkuyu não era um simples esconderijo. Funcionava como uma cidade completa, com infraestrutura para sustentar milhares de pessoas durante meses. O complexo incluía prensas de vinho e azeite, estábulos, celeiros, refeitórios, capelas, escolas e até um espaço no segundo andar que pesquisadores acreditam ter sido uma escola religiosa. A engenharia por trás do projeto impressiona pela sofisticação:
- Mais de 50 dutos de ventilação: poços que subiam até a superfície garantiam circulação de ar fresco em todos os 18 níveis, permitindo a permanência prolongada no subsolo.
- Portas de pedra de meia tonelada: discos rolantes que só podiam ser operados por dentro selavam as passagens contra invasores. Cada andar podia ser isolado separadamente.
- Poço de 55 metros de profundidade: fornecia água para toda a cidade. Os moradores dos níveis inferiores podiam cortar o abastecimento para os andares superiores, impedindo que inimigos envenenassem a água.
- Mais de 600 entradas: a maioria escondida dentro de casas na superfície, permitindo fuga rápida e discreta para o subsolo.
Por que precisavam se esconder com tanta frequência?
A Capadócia sofreu um fluxo constante de impérios ao longo dos séculos, e o subsolo se tornou a estratégia de sobrevivência dos habitantes locais. De acordo com Andrea De Giorgi, professor de estudos clássicos da Universidade do Estado da Flórida, a sucessão de invasores explica o recurso aos abrigos subterrâneos. O período de uso mais intenso, porém, foi durante os ataques árabes ao Império Bizantino, entre os séculos VII e XII.
Nessa época, a cidade atingiu seu auge, com cerca de 20 mil moradores vivendo abaixo da superfície. Cristãos gregos usaram Derinkuyu como refúgio também durante as invasões mongóis de Tamerlão, no século XIV, e depois sob o domínio otomano. No início do século XX, gregos capadócios e armênios ainda desciam aos túneis para escapar de perseguições. A cidade subterrânea só foi definitivamente abandonada em 1923, quando a troca de populações entre Grécia e Turquia forçou os cristãos da região ao exílio.

O que mais existe escondido sob a Capadócia?
Derinkuyu é a maior cidade subterrânea escavada na Turquia, mas está longe de ser a única. Arqueólogos já identificaram mais de 200 complexos subterrâneos na região, dos quais mais de 40 têm três ou mais níveis. A vizinha Kaymakli era conectada a Derinkuyu por um túnel de até 9 km. Em 2014, uma nova cidade subterrânea foi descoberta sob um castelo bizantino em Nevşehir, com indícios de ser ainda maior que Derinkuyu.
A rocha que tornou tudo isso possível é o tufo vulcânico, formado por camadas de cinza compactada ao longo de milhões de anos. Maleável o suficiente para ser escavado com picaretas e pás, o tufo mantém estabilidade estrutural quando seco. Nenhum dos 18 andares de Derinkuyu jamais desabou. A mesma rocha moldou as famosas chaminés de fadas na superfície, transformando a Capadócia em Patrimônio Mundial da UNESCO.
Quem busca desvendar mistérios de civilizações antigas, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Canal History Brasil, que conta com mais de 35 mil visualizações, onde William Shatner mostra os segredos de Derinkuyu, a cidade subterrânea construída em 800 a.C.:
O que aconteceu com a cidade depois de 1923?
Após a partida dos gregos capadócios, Derinkuyu ficou esquecida por quatro décadas. A população turca que se instalou na região usava os poços antigos para buscar água, sem saber que os baldes passavam por uma cidade inteira no caminho até o lençol freático. O próprio nome da cidade moderna, derin kuyu, significa “poço profundo” em turco.
A redescoberta aconteceu em 1963, quando um morador perdeu galinhas que desapareciam por uma fenda aberta durante uma reforma. Ao investigar, encontrou a passagem que levava à rede de túneis. Em 1969, o sítio foi aberto ao público. Até hoje, apenas cerca de metade dos 18 níveis está acessível aos visitantes. Os oito andares abertos revelam escadarias íngremes, corredores estreitos e câmaras que ainda guardam o silêncio de séculos de ocupação clandestina.
Uma civilização inteira sob os pés de quem passa
Derinkuyu é a prova de que, diante da ameaça, a engenharia humana encontra saídas, mesmo quando a saída é para baixo. Uma cidade com ventilação, água corrente, defesa militar e espaço para 20 mil pessoas, escavada sem tecnologia moderna em rocha vulcânica, permaneceu funcional por mais de dois milênios e esquecida por apenas quarenta anos.
Se um dia você caminhar pelas ruas poeirentas da Capadócia, lembre-se de que, bem abaixo dos seus pés, existe uma metrópole silenciosa que salvou vidas durante séculos, esperando ser redescoberta a cada visita.

