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A 12 mil metros de profundidade e selado por uma tampa de metal, o buraco mais fundo do mundo que expôs rochas de 2,7 bilhões de anos

Laila Por Laila
01/03/2026
Em Engenharia

Escondido na gélida Península de Kola, no norte da Rússia, existe um buraco tão profundo que perfurou camadas da Terra formadas há 2,7 bilhões de anos. Com 12.262 metros de profundidade, o Poço Superprofundo de Kola é o buraco artificial mais profundo do mundo. Hoje, ele está selado por uma tampa de metal enferrujada, mas seu legado científico segue vivo, revelando segredos que mudaram a geologia para sempre.

Como surgiu o poço mais profundo do mundo?

Tudo começou em 1970, em plena Guerra Fria. Enquanto os americanos tentavam perfurar o fundo do oceano com o Projeto Mohole, os soviéticos decidiram cavar em direção ao centro da Terra pelo continente. A perfuratriz Uralmash-4E começou a abrir caminho no gelo da Península de Kola com um objetivo ambicioso: chegar a 15 quilômetros de profundidade e estudar a crosta continental.

Durante 24 anos, equipes de cientistas e engenheiros se revezaram na operação. Em 1979, o poço já era o mais profundo do mundo, superando o recorde americano de 9.583 metros. O ápice foi alcançado em 1989, quando a broca atingiu 12.262 metros. Mas o calor infernal de 180 °C no fundo começou a deformar o aço das ferramentas, e a perfuração foi interrompida definitivamente em 1992, após uma série de quebras. Em 2008, o local foi lacrado com uma tampa metálica, encerrando o projeto.

A perfuratriz Uralmash-4E começou a abrir caminho no gelo da Península de Kola com um objetivo ambicioso: chegar a 15 quilômetros de profundidade e estudar a crosta continental

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Quais descobertas científicas foram feitas lá embaixo?

O Poço de Kola não foi apenas um exercício de engenharia. Ele produziu descobertas que obrigaram os geólogos a repensar seus modelos. O principal choque foi a ausência da chamada descontinuidade de Conrad, uma camada que os cientistas acreditavam separar o granito do basalto a cerca de 7 km de profundidade. Em Kola, o granito simplesmente continuava, transformado em gnaisse pela pressão.

Outra surpresa foi a presença de água e hidrogênio em fraturas profundas, algo que se acreditava impossível. E mais impressionante: aos 6 km, os pesquisadores encontraram microfósseis de organismos marinhos com mais de 2 bilhões de anos, provando que a região já foi um oceano. O gradiente geotérmico também era muito maior que o esperado, com temperaturas subindo 2,7 °C a cada 100 metros.

Ano Profundidade alcançada Evento importante
1970 Início da perfuração Uralmash-4E começa a operar
1979 9.583 metros Recorde mundial (supera EUA)
1983 12.000 metros Comemoração do feito soviético
1989 12.262 metros Máxima histórica
1992 12.066 metros Broca quebra, fim da perfuração
2008 Selado Tampa de metal é instalada
Aos 6 km, os pesquisadores encontraram microfósseis de organismos marinhos com mais de 2 bilhões de anos, provando que a região já foi um oceano

É verdade que ouviram gritos do inferno?

Um dos mitos mais famosos sobre o Poço de Kola é a lenda dos “gritos das almas condenadas”. Segundo uma história que viralizou nos anos 1990, os cientistas teriam baixado um microfone resistente ao calor e gravado sons aterrorizantes, como se estivessem ouvindo o inferno. A história é completamente falsa, mas ainda circula na internet.

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Na realidade, os ruídos captados em perfurações profundas são causados pelo movimento das rochas e pela expansão dos gases. Em altas temperaturas, microfones comuns distorcem qualquer som, gerando chiados e estalos que podem parecer estranhos. Cientistas russos já desmentiram a lenda inúmeras vezes, mas o mito persiste, alimentado por programas de TV sensacionalistas.

Qual é o estado atual do poço e seu legado?

Hoje, o Poço de Kola está abandonado e selado. A instalação, que antes abrigava dezenas de pesquisadores, é um amontoado de metal enferrujado. A tampa de aço que cobre o buraco é tudo o que resta para evitar acidentes. Apesar do abandono, o local ainda atrai curiosos e cientistas, e há planos para transformá-lo em um museu geológico.

  • Rochas de 2,7 bilhões de anos: expostas pela perfuração, estão entre as mais antigas já estudadas.
  • Hidrogênio abundante: sua presença em grandes profundidades mudou teorias sobre recursos energéticos.
  • Vida microbiana profunda: os microfósseis encontrados redefiniram os limites da biosfera.
  • Calor inesperado: a temperatura de 180 °C a 12 km forçou revisões dos modelos geotérmicos.
  • Inspiração para a ciência: Kola abriu caminho para projetos como o ICDP (Programa Internacional de Perfuração Continental).

O canal TikTak Draw – Português, com mais de 575 mil inscritos, produziu um vídeo em estilo “Draw My Life” contando a história do Poço de Kola e a lenda do “poço do inferno”. A animação explica de forma simples e divertida como a perfuração aconteceu e por que os mitos não passam de ficção.

O Poço Superprofundo de Kola continua sendo um marco da engenhosidade humana e da busca por conhecimento. Mesmo lacrado, ele nos lembra que o chão que pisamos guarda segredos de bilhões de anos, esperando para serem descobertos. E que, às vezes, a verdade é mais fascinante que qualquer lenda de inferno.

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