Em Accra, capital de Gana, a crise habitacional e a montanha de lixo plástico se encontram numa solução inovadora. Uma empresa local desenvolveu um tijolo feito de plástico reciclado misturado com areia, que promete casas um terço mais baratas, gera renda para centenas de catadores e já tem encomendas para 20 moradias populares.
Por que Accra precisa de novas soluções de moradia?
A capital ganense recebe cerca de 50 mil novos moradores por ano, mas a oferta de habitação não acompanha esse crescimento. O resultado é a expansão de áreas precárias como Nima, o maior bairro de lata da cidade, onde falta infraestrutura básica, coleta de lixo e saneamento. As ruas acumulam resíduos, e a poluição vira parte do cotidiano de quem vive ali.
Foi nesse cenário que o empresário Nelson Butzen, que antes atuava no setor de sacos plásticos, decidiu mudar o modelo de negócio. Em vez de colocar mais plástico no mercado, ele passou a usar o descarte como matéria-prima para construir moradias, conectando dois problemas urgentes: o lixo e a falta de teto.

O canal DW Português para África, com 200 mil inscritos, mostrou em reportagem como a iniciativa funciona na prática. A matéria destaca o processo de produção dos tijolos e o impacto social do projeto. Confira:
Como são feitos os tijolos de plástico reciclado e areia?
O processo é industrial, mas com uma lógica objetiva. O plástico recolhido passa por uma máquina que decompõe e derrete o material em altas temperaturas. Em seguida, ele é misturado com areia, formando uma pasta prensada em moldes até virar tijolo. Cada bloco contém cerca de um terço de plástico reciclado e dois terços de areia, garantindo rigidez e conformação.
As máquinas conseguem produzir 25 tijolos por hora. O design inclui ranhuras e um buraco no meio, pensados para dificultar a entrada de calor. Isso é especialmente importante em Accra, onde o conforto térmico em casa faz toda a diferença.

Qual é o custo e a resistência desses tijolos?
A promessa é clara: a casa feita com tijolos de plástico reciclado custa um terço menos do que as construções tradicionais de cimento e aço. Esse corte de custo é visto como um caminho para ampliar o acesso de pessoas com baixos rendimentos à habitação digna.
A aceitação do público tem sido impulsionada por dois fatores: preço mais baixo e resistência. Os moradores relatam que os tijolos aguentam impactos, suportam calor e mantêm estabilidade ao longo do tempo. A durabilidade é um argumento forte num país onde o clima é quente e úmido.
A tabela abaixo compara os tijolos de plástico reciclado com os blocos tradicionais:
| Característica | Tijolo de plástico reciclado | Tijolo tradicional (cimento) |
|---|---|---|
| Custo da casa | Um terço mais barato | Referência de preço |
| Composição | Plástico reciclado (33%) + areia | Cimento, areia, brita |
| Produção por hora | 25 tijolos | Variável, geralmente artesanal |
| Conforto térmico | Superior (design com ranhuras) | Inferior |
| Impacto ambiental | Reduz lixo plástico e emissões de cimento | Alto (cimento responde por 8% do CO₂ global) |
Como a coleta de resíduos gera emprego e renda?
Para alimentar a produção, a empresa criou uma rede que emprega mais de 300 pessoas na coleta de lixo. Equipes separam sacos plásticos e embalagens descartadas, e recebem por quilo de material recolhido. O pagamento gira em torno de 15 cêntimos de euro por quilo, criando um incentivo econômico direto para retirar resíduos das ruas e canais.
Além do benefício ambiental, a iniciativa gera renda para catadores informais e ajuda a limpar bairros onde a coleta pública falha. Cada quilo de plástico retirado é um quilo a menos entupindo bueiros, poluindo valas ou se acumulando em áreas de convivência.
Alguns dos impactos positivos já observados incluem:
- Geração de renda: Mais de 300 famílias ganham dinheiro com a coleta de resíduos.
- Redução do lixo nas ruas: Bairros como Nima começam a ver menos plástico espalhado.
- Habitação acessível: Casas populares com preço reduzido para quem mais precisa.
- Conforto térmico: Moradias mais frescas num clima quente e úmido.
- Menos emissões de CO₂: O plástico reciclado substitui parte do cimento, um dos maiores poluidores globais.

Por que a demanda superou a capacidade de produção?
A divulgação da iniciativa em vídeos e reportagens fez com que a procura disparasse. A empresa já recebeu encomendas para 20 casas populares, cada uma exigindo cerca de 3 mil tijolos. Isso significa produzir 60 mil blocos, um volume que rapidamente expôs os gargalos logísticos e industriais do projeto.
O próprio Nelson Butzen reconhece que falta equipamento e espaço para operar em escala. Quando a demanda cresce mais rápido que a capacidade, surgem filas, atrasos e frustração. O risco é que a solução perca força justamente quando mais gente olha para ela como alternativa real.
Qual é o reconhecimento internacional e o futuro da iniciativa?
Apesar dos desafios, o projeto já ganhou visibilidade global. A empresa foi convidada para uma exposição mundial de reciclagem de plástico na Alemanha, o que pode atrair parceiros, investidores e apoio institucional. Esse tipo de vitrine ajuda a ampliar o impacto, mas também aumenta a pressão por resultados concretos no território onde o problema é mais urgente.
Em Gana, o tema do plástico reciclado na construção começa a chegar ao governo como algo vantajoso: mais barato, mais sustentável e socialmente inclusivo. Ainda assim, transformar uma ideia promissora em política urbana de moradia exige normas técnicas, investimento produtivo e capacidade de execução. O caminho entre o reconhecimento internacional e a escala real ainda precisa ser percorrido.

