O debate público sobre confiança institucional no Supremo Tribunal Federal (STF) ultrapassa o campo jurídico e político e também dialoga com o ambiente empresarial. A avaliação é do professor Álvaro Camargo, professor convidado de cursos de MBA da Fundação Getulio Vargas (FGV), que relaciona a crise institucional do do STF e governança corporativa dentro das organizações.
Segundo o autor, a questão central não está apenas na atuação de uma instituição específica, mas na estrutura de decisão de qualquer sistema que possua uma instância final sem revisão superior.
“O que acontece quando a instância máxima de um sistema não pode ser questionada, pois não há autoridade superior?”, questiona o professor.
Para o professor, essa pergunta também se aplica às empresas. Organizações privadas possuem, na prática, suas próprias “últimas instâncias”, como um CEO com forte concentração de poder, uma diretoria homogênea ou um conselho pouco atuante, ponto comum quando comparamos o STF e governança corporativa.
STF e governança corporativa: os riscos organizacionais da concentração de poder
No contexto da discussão sobre STF e governança corporativa, o autor afirma que, enquanto os resultados são positivos, a ausência de contestação interna costuma passar despercebida. O problema surge quando aparecem incoerências entre a estratégia definida e a realidade operacional.
Ele resume o risco de forma direta:
“Se não houver alguém capaz de questionar as decisões de última instância, a chance de problemas aumenta exponencialmente.”
A análise aponta que o ponto não é a capacidade individual dos líderes, mas a limitação estrutural de qualquer centro decisório. Nenhuma liderança, por mais experiente, consegue avaliar todos os cenários ou antecipar todas as mudanças de mercado sem mecanismos institucionais de revisão, uma preocupação recorrente no debate de governança observado a partir do caso do STF.
O caso Nokia como exemplo clássico
Para ilustrar o impacto da falta de contestação interna, tema recorrente na relação entre STF e governança corporativa, o professor cita o caso da Nokia. Antes de 2007, a empresa dominava o mercado global de celulares. A chegada do iPhone não passou despercebida internamente, engenheiros e executivos identificaram a ruptura tecnológica.
Segundo Camargo, o problema não foi falta de informação, mas incapacidade organizacional de alterar prioridades estratégicas. A mudança exigia migrar o foco do hardware para integração entre software e ecossistema digital, o que implicaria redistribuição de poder dentro da companhia.
Na avaliação do professor, o confronto interno necessário não ocorreu na intensidade adequada, e o mercado acabou impondo a correção. O episódio é apresentado como um exemplo de falha de governança, e não de análise técnica.
Governança como mecanismo de revisão
Ao relacionar o debate institucional ao ambiente empresarial, o texto explica que a discussão sobre STF e governança corporativa ajuda a compreender o papel da revisão independente dentro das organizações.
Para o professor, a ausência de revisão independente aumenta o risco de erro estratégico porque as mesmas pessoas passam a definir regras, métricas e interpretação dos resultados.
Ele cita uma analogia baseada no matemático Kurt Gödel para explicar o problema: sistemas complexos não conseguem garantir sua própria consistência apenas por regras internas. O mesmo ocorreria com organizações.
A conclusão aparece em uma das frases centrais do artigo:
“Se ninguém pode questionar o topo na sua organização, o problema muito provavelmente não está na estratégia. Está na falta de governança.”
Conselhos independentes e proteção ao dissenso
Como resposta ao risco estrutural observado tanto no debate institucional quanto no corporativo, o professor defende estruturas que permitam contestação institucionalizada dentro das empresas, elemento essencial no contexto de STF e governança corporativa.
Entre os mecanismos mencionados estão:
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conselhos de administração efetivamente independentes;
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proteção ao dissenso interno;
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revisão periódica das premissas estratégicas;
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canais formais de contestação das decisões do topo.
Segundo ele, o maior risco não é o erro estratégico, mas a impossibilidade de expor o erro.
“O maior risco não é errar. É não permitir que o erro seja exposto.”
STF e governança corporativa: os impacto para investidores e mercado
No mercado de capitais, a discussão envolvendo STF e governança corporativa tem implicações diretas para investidores. Companhias que só corrigem decisões após perda de valor de mercado tendem a ser mais reativas e menos resilientes. Já organizações com mecanismos internos de revisão conseguem ajustar estratégias antes da punição econômica.
O professor conclui que a governança não deve ser vista apenas como burocracia regulatória, mas como instrumento de estabilidade institucional.
“Governança não é apenas controle ou burocracia. É a capacidade institucional de admitir que a estratégia da organização está errada.”
Ao final, o autor relaciona novamente a reflexão ao debate público atual. Para ele, a discussão sobre instituições evidencia um princípio aplicável também às empresas: nenhum centro de poder é saudável quando se torna imune à contestação.
A pergunta, segundo o professor, permanece válida para qualquer organização, pública ou privada: quem é capaz de impor limites ao seu núcleo decisório antes que o mercado, a crise ou a realidade o façam?













