No coração da Etiópia, uma obra de engenharia colossal está redesenhando o mapa energético e geopolítico da África. A Grande Barragem do Renascimento Etíope (GERD), a maior do continente, retém 74 mil milhões de metros cúbicos de água no Nilo Azul e promete impulsionar a industrialização, gerar receitas com exportação de energia e transformar a vida de milhões de pessoas.
O que é a Grande Barragem do Renascimento Etíope e onde ela está localizada?
A GERD está construída no rio Nilo Azul, perto da fronteira da Etiópia com o Sudão. Com 1.800 metros de largura e 145 metros de altura, seu muro de betão armado cria um reservatório de impressionantes 172 quilômetros de extensão, uma área maior que a cidade de Londres. A obra, iniciada em 2011 pela construtora italiana Webuild, custou cerca de 4 bilhões de dólares, segundo informações da AIM News.
A capacidade instalada é de 5.150 megawatts, suficiente para gerar 15.700 gigawatts-hora por ano, triplicando a produção elétrica atual da Etiópia. Isso significa energia para abastecer cerca de 35 milhões de pessoas e alimentar fábricas, hospitais e escolas em todo o país.
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Como a barragem vai transformar a economia da Etiópia e da região?
A Etiópia é o segundo país mais populoso da África, com mais de 120 milhões de habitantes, mas cerca de 45% da população ainda não tem acesso à eletricidade. Com a GERD em operação, o país poderá eletrificar áreas rurais, impulsionar a agroindústria e criar polos industriais, especialmente nos setores têxtil e de processamento de alimentos.
Além disso, o excedente energético será exportado para países vizinhos como Sudão, Quênia, Djibuti e Sudão do Sul, gerando uma receita estimada em 1 bilhão de dólares por ano. Esse dinheiro ajudará a reduzir a dependência de importações de combustíveis fósseis e financiará novos projetos de infraestrutura. A obra também criou cerca de 25 mil empregos locais durante a construção e transferiu tecnologia de ponta para engenheiros etíopes.

Por que a barragem gera tensões com Egito e o Sudão?
Apesar dos benefícios para a Etiópia, a GERD é fonte de preocupação para os países a jusante, especialmente o Egito. O Nilo é responsável por 97% da água doce consumida no Egito, e o país vê a barragem como uma ameaça existencial. Durante o período de enchimento do reservatório, o fluxo do rio pode ser reduzido, afetando a agricultura e o abastecimento de mais de 100 milhões de egípcios, conforme reportagem da DW.
O Sudão, por sua vez, tem uma posição ambígua: pode se beneficiar da energia mais barata e do controle de cheias, mas também teme danos às suas próprias barragens e a redução do fluxo em períodos de seca. Negociações mediadas pela União Africana buscam um acordo de operação, mas a Etiópia insiste na soberania sobre o Nilo Azul, que contribui com 85% da vazão total do Nilo.
A tabela abaixo resume as principais características técnicas da GERD e seu impacto regional:
| Característica | Dado / Impacto |
|---|---|
| Altura do muro | 145 metros |
| Largura | 1.800 metros |
| Capacidade do reservatório | 74 mil milhões de m³ |
| Extensão do reservatório | 172 km (maior que Londres) |
| Capacidade instalada | 5.150 MW |
| Geração anual | 15.700 GWh |
| Pessoas beneficiadas com energia | 35 milhões |
| Receita estimada com exportação | 1 bilhão USD/ano |
| Empregos gerados | 25 mil |

Quando a barragem foi inaugurada e qual é o cronograma de operação?
A inauguração oficial ocorreu em setembro de 2025, em cerimônia liderada pelo primeiro-ministro etíope Abiy Ahmed, apesar das objeções do Egito e Sudão. As primeiras turbinas começaram a gerar energia já em 2022, e agora o projeto entra em fase de operação plena, com todas as unidades previstas para funcionar nos próximos anos.
O canal otimesbrasil, com 223 mil seguidores, trouxe detalhes sobre a conclusão da obra. A reportagem destaca que o reservatório ocupa 1.874 km², uma área maior que a cidade de Londres, e que a Etiópia pretende compartilhar água e energia com os vizinhos, desde que respeitada sua soberania. Confira:
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Quais são os desafios e o futuro da GERD?
Mesmo com a inauguração, desafios persistem. A falta de um acordo vinculante sobre a operação da barragem em períodos de seca prolongada mantém a tensão diplomática. O Egito já sinalizou que recorrerá a instâncias internacionais caso seus interesses sejam ameaçados. O Sudão, fragilizado por conflitos internos, tenta equilibrar sua posição entre os dois vizinhos.
Para a Etiópia, porém, a GERD é um símbolo de renascimento e autonomia. O país aposta na energia barata para atrair investimentos, industrializar-se e tirar milhões da pobreza. O sucesso ou fracasso da barragem será observado de perto por todo o continente, que vê no Nilo não apenas um rio, mas o centro de uma nova dinâmica de poder na África Oriental.
Alguns dos principais impactos esperados para os próximos anos incluem:
- Industrialização acelerada: Fábricas têxteis, processadoras de alimentos e plantas industriais devem surgir com energia farta e barata.
- Redução da pobreza energética: A eletrificação rural vai alcançar milhões de etíopes que ainda vivem sem luz.
- Integração regional: A exportação de energia para vizinhos pode fortalecer laços econômicos e reduzir conflitos.
- Desenvolvimento agrícola: Com eletricidade, sistemas de irrigação podem ser ampliados, aumentando a produção de alimentos.
- Atração de investimentos estrangeiros: A estabilidade energética torna a Etiópia mais atraente para capital internacional.
- Protagonismo geopolítico: O país se consolida como potência regional, capaz de negociar de igual para igual com Egito e Sudão.
Vale a pena o investimento bilionário?
Os 4 bilhões de dólares investidos representam um dos maiores esforços de infraestrutura da história africana, mas o retorno em desenvolvimento, empregos e autonomia energética justifica o custo. A longo prazo, a GERD pode pagar-se com a exportação de eletricidade e o aquecimento da economia interna.
No entanto, a barragem também expõe as fragilidades da cooperação regional em torno de recursos hídricos compartilhados. O Nilo é um rio que une cinco países, e o futuro da GERD dependerá tanto da engenharia quanto da diplomacia. Se conseguir equilibrar os interesses de todos, a maior barragem da África será lembrada não apenas por seu concreto, mas por ter inaugurado uma nova era de cooperação no continente.

