Jacarta, a capital da Indonésia, afunda até 25 centímetros por ano e pode estar amplamente submersa em 2050. A solução encontrada pelo governo foi radical: construir uma nova cidade do zero. Batizada de Nusantara, a futura capital está sendo erguida na selva de Bornéu, com um orçamento de 35 bilhões de dólares e a promessa de se tornar uma “smart city” verde, movida a energia renovável e livre dos problemas da velha metrópole.
Por que Jacarta está afundando tão rapidamente?
Jacarta é um exemplo extremo de subsidência urbana. A combinação de superlotação, drenagem deficiente, extração excessiva de água subterrânea e elevação do nível do mar faz com que o solo ceda em ritmo alarmante. Em algumas áreas do norte da cidade, o terreno já afundou até 2,5 metros na última década.
Hoje, cerca de 40% da cidade está abaixo do nível do mar. Estudos indicam que, se nada fosse feito, grandes porções da capital estariam submersas por volta de 2050. A situação é agravada pela concentração econômica em Java, que atrai cada vez mais habitantes para a região.

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Onde e como será Nusantara, a nova capital?
Nusantara está sendo construída em Kalimantan Oriental, na ilha de Bornéu, a mais de 1.000 quilômetros de Jacarta. A área foi escolhida por estar fora do “Anel de Fogo” do Pacífico, ou seja, livre de grandes terremotos e erupções vulcânicas, e por representar um novo polo de desenvolvimento fora da superlotada ilha de Java.
A cidade ocupará uma área de 256 mil hectares de floresta tropical. O projeto está orçado em 35 bilhões de dólares e será concluído em fases até 2045, quando deverá abrigar cerca de 1,9 milhão de pessoas, incluindo o presidente, ministérios, servidores públicos e um ecossistema de universidades, centros de tecnologia e serviços. A tabela abaixo resume os números principais:
O canal The Impossible Build, que soma mais de 152 mil inscritos, produziu um documentário detalhado sobre a construção:
O que torna Nusantara uma “cidade inteligente e sustentável”?
O plano urbanístico de Nusantara aposta em energia renovável, transporte público elétrico e alta digitalização dos serviços públicos. A ideia é que a cidade funcione como uma vitrine de desenvolvimento equilibrado, reduzindo a concentração econômica em Java e atraindo investimentos para o leste do país.
Entre as promessas estão:
- Ampla cobertura de áreas verdes, com a maior parte do território preservada como floresta.
- Mobilidade limpa, com veículos autônomos e elétricos integrados.
- Infraestrutura digital avançada, com redes de alta velocidade e gestão pública baseada em dados.
- Edificações com certificação ambiental, seguindo padrões internacionais de eficiência.
Quais são as controvérsias e os desafios do projeto?
Apesar do discurso sustentável, Nusantara enfrenta críticas pesadas:
- Ambientalistas alertam para o desmatamento e o impacto sobre a biodiversidade de Bornéu, um dos ecossistemas mais ricos do planeta.
- Comunidades indígenas da região temem ser deslocadas e perder seus territórios tradicionais.
- Economistas apontam que a nova capital não substituirá o peso econômico de Jacarta, que continuará sendo o centro de negócios do país.
- Risco de “cidade vitrine”: há quem tema que Nusantara se torne uma bolha de modernidade desconectada dos problemas reais da Indonésia.
Estudos da Oxford Economics indicam que o projeto pode estimular o crescimento fora de Java, mas não resolverá sozinho o afundamento de Jacarta nem a desigualdade regional.

Nusantara vai dar certo?
A resposta ainda está em aberto. A construção de uma capital do zero é um desafio faraônico, que exige não apenas dinheiro e engenharia, mas também aceitação social e equilíbrio ambiental. Se Nusantara conseguir conciliar tecnologia, sustentabilidade e respeito às comunidades locais, pode se tornar um modelo para o século XXI. Se falhar, será mais um monumento à arrogância do planejamento urbano. Por enquanto, os olhos do mundo estão voltados para a selva de Bornéu, onde uma nova cidade tenta nascer.

