O Governo Federal encaminhou ao Congresso Nacional a proposta que dá andamento à mudança da escala de trabalho 6×1, reacendendo um dos debates mais sensíveis do mercado de trabalho brasileiro. A ideia é simples na forma, e explosiva no efeito: colocar fim na escala 6×1 sem redução salarial. O argumento soa bem, especialmente quando associado ao combate ao burnout e à melhoria da qualidade de vida do trabalhador. O problema é que, no Brasil, boas intenções quase sempre tropeçam em más contas.
O coração desse debate não está na filosofia do descanso. Está nos números. E eles contam histórias muito diferentes.
De um lado, entidades empresariais como a FecomercioSP e a CNI alertam para um efeito dominó difícil de ignorar. A redução da jornada para 36 horas semanais, sem corte salarial, elevaria o custo da hora trabalhada entre 15% e 20%. Em setores que operam todos os dias, comércio, hotelaria, bares, restaurantes, agroindústria e processamento de alimentos, isso não é detalhe técnico. É sobrevivência operacional.
Estudos citados por Estadão e Exame projetam impacto negativo de até R$ 88 bilhões no PIB e a eliminação de cerca de 640 mil empregos formais. A lógica é direta: se a produção por hora não sobe, o custo unitário explode, e o repasse ao preço tem limite num país de renda curta.
Por outro lado, pesquisadores e técnicos ligados ao governo veem um cenário menos dramático. Estudo do Ipea, publicado em fevereiro de 2026, estima impacto próximo de 1% na folha de pagamento dos setores de comércio e indústria, apostando na capacidade do mercado de absorver a mudança via reorganização das escalas.
Pesquisadores da Unicamp vão além: defendem que a redução da jornada poderia gerar até 4,5 milhões de novos postos de trabalho, com ganhos de produtividade ligados à menor fadiga, menos erros e menos afastamentos. O argumento social se completa com a crítica de que a escala 6×1 gera custos invisíveis ao Estado, pressionando SUS e INSS.
É aqui que o debate deixa de ser apenas técnico, passa a ser político.
Como explicar a distância entre R$ 88 bilhões de perda no PIB e um impacto de apenas 1% na folha? A resposta está menos na matemática e mais nas premissas. Os estudos otimistas partem de uma economia capaz de absorver custos e elevar produtividade. O setor produtivo olha para o Brasil real: juros altos, carga tributária pesada sobre a folha, informalidade elevada, infraestrutura precária e um sistema que torna caro contratar, manter e demitir.
Nada disso invalida o debate sobre qualidade de vida. Mas deixa um alerta: descanso não cria produtividade por decreto. Sem faseamento, diálogo setorial e desoneração da folha, o risco é transformar um avanço social em choque econômico silencioso.
Brasília chama de avanço social o que o Brasil real paga em desemprego, informalidade e estagnação.













