A relação entre Donald Trump e o Federal Reserve (Fed) voltou ao radar dos investidores em meio à chamada “Super Quarta”, que reúne decisões de política monetária nos Estados Unidos e no Brasil. Embora o mercado não espere mudanças na taxa de juros americana no curto prazo, cresce a preocupação com a independência do banco central e com a possibilidade de interferência política na condução da política monetária.
Segundo Alexandre Mathias, estrategista-chefe da Monte Bravo, o cenário global vive um paradoxo. De um lado, a economia americana segue resiliente, com consumo firme, expectativa de investimentos em infraestrutura e ausência de sinais claros de recessão. Do outro, o ambiente político tem se transformado em uma fonte recorrente de volatilidade.
“O presidente Trump se converteu nele mesmo em um fator de risco. Quando está tudo tranquilo, ele arranja problema com alguém. Um dia é a Groenlândia, outro o Panamá, depois o Canadá. Existe uma necessidade contínua de gerar manchetes”, afirmou.
Para Mathias, apesar do ruído político, o Fed tem adotado uma postura técnica e serena. Os cortes de juros realizados no fim do ano passado foram classificados como “prudenciais”, mesmo diante de uma atividade econômica ainda considerada robusta.
“A economia tem reiterado sinais de que não está afundando. O consumo segue performando bem, há perspectiva de investimento em infraestrutura e o Fed agora entra em um período de observação”, explicou.
Sucessão no Fed e risco para a curva de juros
O principal ponto de atenção, na avaliação do estrategista, está na sucessão de Jerome Powell. O mercado teme que Trump indique um nome excessivamente alinhado politicamente, com viés favorável a cortes artificiais de juros.
“Um presidente muito pró-corte pode baixar artificialmente a parte curta da curva, mas a ponta longa sobe, porque o mercado passa a precificar mais risco de inflação e perda de credibilidade”, disse.
Segundo Mathias, o indicador mais sensível a esse risco é a inclinação da curva de juros americana. Movimentos recentes já mostram uma abertura de cerca de 15 a 20 pontos-base, sinalizando preocupação com a possibilidade de politização da política monetária.
“A compra de títulos de dois anos tende a derrubar a ponta curta, mas os vencimentos longos, como 10, 20 e 30 anos, sobem refletindo o risco inflacionário e a incerteza institucional”, afirmou.
Limites institucionais à interferência política
Apesar das ameaças frequentes, Mathias avalia que há limites práticos para uma interferência direta de Trump no Fed. Isso ocorre tanto pela estrutura colegiada da instituição quanto pelo peso da reputação técnica dos seus dirigentes.
“São 12 votos no comitê. A política monetária é construída por consenso. Ninguém vai manchar sua carreira para atender a uma ordem política”, destacou.
Para o estrategista, mesmo que Trump tente impor um nome alinhado, esse presidente precisaria conquistar credibilidade técnica junto ao board, o que reduz o espaço para decisões consideradas “populistas”.
“Não adianta chegar dizendo que o Trump quer cortar juros. As pessoas não vão se mover por isso. O mercado coloca esse risco de forma parcimoniosa, porque não parece factível no curto prazo”, concluiu.
Na prática, segundo Mathias, uma mudança estrutural no comando do Fed exigiria a substituição de vários membros do conselho, um processo que levaria tempo e enfrentaria fortes barreiras institucionais. Até lá, o banco central americano segue operando sob a lógica da estabilidade, da credibilidade e da construção técnica de decisões.













