A polarização política deixou de ser apenas um embate entre ideias e propostas e passou a operar como identidade social, segundo avaliação do jornalista Diogo Shelp em entrevista ao BM&C Talks. Para ele, o fenômeno atual se caracteriza menos por divergências programáticas e mais por vínculos emocionais e rejeição ao adversário.
Shelp afirma que o debate contemporâneo se aproxima do conceito de “polarização afetiva”, quando indivíduos passam a se identificar com grupos políticos de forma rígida, sem espaço para nuances.
“Nesse modelo, qualquer discordância interna é vista como traição, e o outro campo deixa de ser um interlocutor legítimo para se tornar um inimigo“, explica.
Polarização política, bolhas informativas e crise da imprensa
Segundo o jornalista, esse ambiente foi intensificado pela dinâmica das redes sociais, que estimulam interações baseadas em engajamento emocional. O excesso de informação, muitas vezes de baixa qualidade, contribui para a amplificação de frustrações e para a formação de bolhas que reforçam crenças pré-existentes.
Na avaliação de Shelp, a maioria da população não se identifica com os extremos, mas acaba silenciada pela lógica do conflito permanente.
“Existe uma parcela significativa de cidadãos que se posiciona fora da dicotomia radical, mas que encontra dificuldade para participar do debate público sem ser rotulada“, avalia.
O autor também critica a forma como a imprensa tem reagido a esse cenário. Embora reconheça o papel da mídia profissional na checagem e correção de erros, Shelp afirma que parte dos veículos passou a adotar estratégias de atração de audiência semelhantes às das redes sociais, como títulos apelativos e conteúdos orientados por cliques.
Judicialização e violência como efeitos da polarização política
Outro ponto destacado é a judicialização da política, que, segundo ele, contribui para a desconfiança institucional.
“Ao transferir disputas do Legislativo para o Judiciário, decisões passam a ser interpretadas como partidárias, o que reforça a percepção de que não há árbitros neutros no sistema“, explica.
Shelp também alerta para o risco de violência política, que se intensifica quando o adversário é desumanizado. Na sua visão, discursos que tratam o outro campo como ameaça existencial reduzem os limites morais do confronto e tornam legítimas soluções extremas.
“No caso Brasil, a polarização se estruturou principalmente em torno do eixo petismo e antipetismo. Essa divisão cristalizou um antagonismo que ultrapassa diferenças ideológicas e se tornou emocional“, analisa.
Moderação como saída
Apesar do diagnóstico crítico, Shelp rejeita a ideia de que o processo seja irreversível. Ele afirma que a história mostra ciclos de radicalização seguidos por retomadas de moderação, impulsionadas por lideranças e pela própria fadiga social com o conflito.
Como saída, o autor defende maior valorização da informação factual, redução do consumo de conteúdo opinativo e recuperação do espaço do debate racional.
“A reconstrução da confiança política passa, necessariamente, pela disposição de ouvir, ponderar e conviver com o dissenso“, conclui.













